VIAGEM À EUROPA. PARTE 1: BERLIM, PRAGA, VIENA, MUNIQUE, SALZBURG, FRANKFURT, COLÔNIA

Zoológico de Berlim

Nota: Palavras em azul são links. Sugestão: clique com o botão direito e selecione "Abrir link em nova janela".

Berlim, 15 de junho de 2011
Dois anos atrás, o desastre do voo da Air France duas semanas antes de nosso embarque, numa rota (Brasil-Europa) que em décadas de aviação sempre fora segura, nos deixou pensando duas vezes se deveríamos realmente “arriscar nossas vidas” e enfrentar o misterioso fenômeno meteorológico que se interpunha entre nós e o Velho Continente. Acabamos fazendo a viagem dos sonhos.
Desta vez, uma misteriosa epidemia de e coli na Alemanha rapidamente debelada e as revelações da caixa preta do avião da Air France, resgatada no fundo do mar, revelando que o acidente foi por culpa dos pilotos, não chegaram a abalar nossos nervos. Enfrentamos com valentia o cansativo translado aéreo Cidade Maravilhosa-Velho Mundo e eis que, depois de enfrentarmos a rigorosa segurança de Heathrow (onde baldeamos) e as autoridades de imigração alemãs, estamos de novo na Europa!
Chegada como planejei pesquisando na Internet, no Google Maps etc. Do aeroporto (Tegel) um ônibus e depois o metrô, com uma baldeação, nos deixaram pertinho do hotel. Da janela de nosso quarto no confortável Hotel Ibis Berlin Messe contemplo a cidade. Fiz a reserva com quase nove meses de antecedência pagando a bagatela de 50 euros por noite pelo quarto de casal (o café da manhã custa mais €5 por pessoa).
No primeiro dia em Berlim, o zoológico. O zoológico de Berlim é, dentre todos os zoológicos do mundo, o que abriga o maior número de espécies de animais. Vê-se de tudo: ursos polares (dorminhocos), elegantes pinguins-imperadores, um ursinho panda (meio deprê porque perdeu recentemente a "esposa"), morcegos, corujas, recifes de corais, sapos, orangotangos, gorilas, formigas, peixes fosforescentes das profundezas abissais, animais noturnos, nosso pirarucu amazônico, uma variedade de ursos, enfim, todo tipo de bicho. Passeio para um dia inteiro.
Atração à parte, as criancinhas alemãs, loirinhas de olhinhos azuis (vez ou outra aparece uma criança negra ou oriental para fazer um contraponto), muitas em excursões escolares, com seus bonezinhos identificadores. O parque em si também é bonito, com flores, vegetação diferente da nossa (a não ser onde se quer simular um hábitat tropical), pavilhões, num estilo romântico alemão do século XIX.
Impressão da Mi: "Vi todos os animais que eu queria, coruja branca, há muitos tipos de coruja, o aquário de lá é lindo principalmente a parte dos corais, é surpreendente as cores que há no oceano. Vi o pandinha que é fofo, leões gigantes, urso branco, outros ursos, bicho-folha, lacraias, águia americana, é muito bicho..."
Ao final do dia (nesta época só escurece quase às dez da noite) um passeiozinho à Unter den Linden e ao Portão de Brandenburgo, que já foi o símbolo da Berlim dividida, acabou se prolongando além do planejado, porque obras num trecho da linha 2 do metrô nos obrigaram a fazer uma baldeação que em si não tinha mistério nenhum, mas vai entender esse negócio explicado via alto-falante em alemão!
O dinheiro aqui se esvai — são 40 euros para duas pessoas entrarem no Zoológico, 68 euros pelo Welcome Card Museum, etc. É preciso exercer o controle férreo de um Ministro da Economia, por um lado, e ser desprendido em relação ao dinheiro como um monge budista, por outro (ou seja, não chorar o dinheiro derramado).

Alte Nationalgalerie
Berlim, 16 de junho
Segundo dia em Berlim. Os museus das antigas capitais imperiais europeias ostentam acervos descomunais, resultantes de séculos de coleções por suas famílias imperiais. O ideal é visitar um só museu por dia, de preferência começando de manhã, com toda a calma do mundo. Mas devido ao grande número de atrações em Berlim e aos poucos dias de estadia (cinco) — e para aproveitarmos o Welcome Card Museum Island, que por €34 dá direito a utilizar o sistema de transportes e visitar de graça todos os museus da Ilha dos Museus — resolvemos hoje matar três coelhos de uma só cajadada. Após visitarmos a impressionante e imponente Berliner Dom, a catedral neoclássica construída entre 1747 e 1750 e reaberta em 1993 após 40 anos de trabalhos de restauração, de cuja cúpula se tem uma bonita vista da cidade, atacamos três museus em série (com pequenas pausas para beber água e descansar entre um e outro):
1) Neues Museum (Museu Novo): A construção original de meados do século XIX foi fortemente danificada na Segunda Guerra Mundial. Após permanecer 70 anos fechado, foi restaurado segundo projeto do arquiteto britânico David Chipperfield, vencedor de um concurso internacional. Abriga o acerco do antigo Museu Egípcio, cujo objeto mais famoso é a cabeça da rainha Nefertiti, e objetos da coleção de antiguidades clássicas. Pulamos o terceiro andar (basicamente dedicado à pré-história), começamos pelo segundo (Roma, Egito, etc.), descemos ao térreo (com destaque para a Troia de Schliemann e os achados arqueológicos da ilha de Chipre) e encerramos no subsolo (costumes e crenças mortuárias etc.)
2) Alte Nationalgalerie (Galeria Nacional Antiga): Pinturas e esculturas principalmente alemãs do século XIX, abrangendo as escolas romântica (estilo em que os alemães se destacaram também na música , literatura e filosofia), realista (naturezas mortas, paisagens) e impressionista.
3) Pergamonmuseum: Museu constituído de três coleções: antiguidades clássicas (Antikensammlung), Museu do Oriente Próximo (Vorderasiatisches Museum) e Museu de Arte Islâmica. Impressionantes o Altar de Pérgamo de cerca de 170 a.C., o portão babilônico de Ishtar do século VI a.C. e o portão do Mercado de Mileto do século II. Todas essas estruturas monumentais foram reconstruídas. Assim você vê elementos (estátuas, frisos, etc.) originais combinados com acréscimos modernos, resultando num todo bem mais interessante do que se você visse apenas os fragmentos antigos (que é o que você vê no British Museum de Londres).
Depois um "pulo" à Kurfürstendamm e Tauentzienstrasse, o coração da antiga Berlim Ocidental. Duas décadas após a queda do comunismo, o contraste entre as Berlins ex-ocidental e ex-oriental ainda é grande. Em diário de viagem de 1985 quando visitei Berlim Oriental, escrevi estas reflexões que ainda me parecem atuais:

Passeio para Berlim Oriental.
Atravessamos a fronteira na estação de Friedrichstrasse, percorremos a Unter den Linden até a Torre de Televisão, de onde se descortina uma vista panorâmica da cidade, visitamos o museu da História Alemã.
Já é clichê comparar o colorido de Berlim Ocidental – construções modernas, trânsito intenso, letreiros por toda parte, vitrines sofisticadas, inferninhos, restaurantes de todos os tipos, pessoas com trajes os mais variados – com a austeridade de Berlim Oriental – poucos carros, na maioria Ladas, de fabricação soviética, pessoas vestidas sem imaginação, propaganda comunista onipresente.
Uma mesma cidade e, no entanto, mundos completamente diferentes, praticamente sem comunicação!
Sentado num bar ao ar livre, custava-me acreditar que aquele garçom atencioso que me trouxera a cerveja, os dois amigos da mesa em frente conversando entusiasticamente, todas aquelas pessoas alegres, comendo salsichas e bebendo, todos eles eram cidadãos de um regime ditatorial, que teve de construir um Muro para evitar a evasão da população.
Muito já se escreveu sobre as vantagens e desvantagens do comunismo ou do capitalismo. Passeando por Berlim Oriental, também formulei reflexões sobre o tema. O comunismo é produto de mentalidades idealistas, que se propuseram a melhorar o mundo. Os comunistas russos de 1917 estavam imbuídos das melhores intenções. Nos primeiros anos do novo regime, a Rússia Soviética era símbolo de progresso: Revolução Sexual, emancipação das minorias, vanguarda artística, liberdade de expressão. Alguma coisa saiu errada. Sabemos que nos países comunistas as necessidades básicas da população são atendidas: emprego, habitação, saúde. Porém tudo que existe de criativo, em termos culturais ou tecnológicos: o jazz, a computação, a tecnologia do “laser”, o dodecafonismo, o ônibus espacial, são produto de artistas, cientistas, intelectuais de países capitalistas.

Alexanderplatz
Berlim, 17 de junho (sexta-feira)
Terceiro dia em Berlim. Às dez da manhã eu tinha um encontro marcado com um funcionário do setor de arquivos do Museu Judaico para doar velhos documentos de minhas famílias paterna e materna, bem como um álbum de fotos do meu avô materno da Primeira Guerra Mundial. O Museu Judaico de Berlim — cidade que foi o coração do nazismo — no bairro de Kreuzberg (não longe da estação de metrô Hallesches Tor), com sua concepção arquitetônica arrojada (são dois prédios contíguos, um antigo, por onde se entra, outro pós-moderno, acessado por uma passagem subterrânea) e concepção museológica criativa, é uma grande atração turística da cidade. O museu conta a história do povo judaico — um povo sui generis que legou Cristo à humanidade — por terras alemãs. A loucura da perseguição e posterior extermínio sistemático, em escala industrial (com eficiência alemã) da população judaica europeia é enfocada através de casos concretos, específicos — com fotos, cartas, objetos, trechos de diários...
De lá fomos, em parte a pé, em parte de metrô, até a Alexanderplatz, que dá nome ao clássico romance de Döblin, Berlin Alexanderplatz (que virou filme de Fassbinder) e que foi a praça principal da antiga Berlim Oriental. De lá descemos a Karl Liebknecht Str. passando pela Marienkirche (Igreja de Santa Maria) e pela esplendorosa fonte de Netuno, neobarroca. Visitamos o espetacular DDR Museum (Museu da República Democrática Alemã), que mostra de forma interativa a história e o cotidiano da experiência socialista em território alemão. Embora inspirada por nobres ideais, acabou descambando numa prisão coletiva e num Estado policial. No DDR Restaurant anexo comemos a KETWURST (a “ketschup” Wurst, o correspondente na DDR ao hot dog capitalista) com uma Berliner Bürgerbräu Rotkehlchen, cerveja tradicional que foi muito apreciada na Alemanha Oriental. Descemos a tradicional Unter den Linden e visitamos o Memorial dos Judeus Assassinados na Europa (o Museu do Holocausto), constituído de 2711 blocos de concreto (estelas) de diferentes alturas e um Centro de Informações com histórias de cortar o coração das vítimas (entre elas crianças) da fúria insana que se abateu sobre a terra de Goethe e Beethoven.

Schloss Charlottenburg e estátua do Grande Eleitor Frederico Guilherme
Berlim, 18 de junho
Diariamente tomamos um reforçado café da manhã no hotel que nos permite rodar o dia inteiro sem precisarmos nos preocupar com a alimentação, e no meio ou final da tarde uma salsicha com pão (Wurst mit Brötchen) — as salsichas aqui são deliciosas e baratíssimas — e à noite um chocolate — delícia o chocolate europeu — matam o pouco de fome residual. Além disso sempre levamos conosco uma garrafa de litro e meio de água mineral, que no supermercado custa menos de um euro. Assim nos mantemos sempre hidratados, pois o clima aqui é mais seco do que no Brasil.
De manhã fomos direto ao Schloss Charlottenburg (Palácio Charlottenburg — saltar na estação de metrô Sophie-Charlotte Platz e subir a Schlossstrasse). Construído originalmente por Frederico I, primeiro rei da Prússia, como residência de verão para sua mulher Sophie Charlotte, foi ampliado por seus sucessores. Impactantes o Porzellankabinett (Gabinete das Porcelanas - cartão postal abaixo), com mais de 2900 peças de porcelana (não mais as originais, destruídas na Segunda Guerra Mundial) e, na nova ala (Neuer Flügel) em estilo rococó acrescentada por Frederico, o Grande, a Goldene Galerie (Galeria Dourada), com espelhos ao longo das paredes como no Salão dos Espelhos de Versalhes.



Depois fomos à Hauptbahnhof (Estação Ferroviária Principal) fazer as reservas de lugares para as nossas viagens de trem. No Brasil adquiri pelo site da Rail Europe um Eurail Select Pass válido para 6 dias de viagens de trem (dentro de um intervalo de 2 meses) pela Áustria, República Tcheca, França e Alemanha. Como nessa época (fim de primavera, início de verão) o movimento é grande, convém reservar os lugares nos trens, o que não consegui fazer pelo site da Rail Europe (cheguei a escrever uma carta a um site de defesa do consumidor reclamando). Mas há males que vêm para o bem: as reservas feitas aqui custaram a metade do que teriam custado pelo site.
Finalmente fomos visitar o Gedenkstätte Berliner Mauer (Bernauer Strasse, 111 — ao lado da estação Nordbahnhof da S-Bahn), memorial que homenageia as 192 pessoas que morreram tentando atravessar o muro. Após a reunificação é compreensível que os berlinenses tenham derrubado aquela absurda barreira, mas alguns fragmentos sobrevivem na área do memorial. Fotos mostram não só as vítimas — predominantemente jovens, até crianças — mas também as barbaridades, as arbitrariedades do regime socialista, como a derrubada de uma igreja inteira que se encontrava na rota do muro, a remoção de parte das sepulturas de um cemitério que idem. Pelo menos para os alemães, depois das experiências do nacional-socialismo e do socialismo no estilo soviético, SOCIALISMO NUNCA MAIS!

Potsdamer Platz e um pedacinho do Muro.  
Berlim, 19 de junho (domingo)
Enfim a chuva prevista para a quinta-feira chegou (ontem já havia chovido um pouquinho). Previsão do tempo é a mesma imprecisão no mundo inteiro. Sair sem agasalho por aqui é arriscado — as temperaturas podem cair de uma hora para outra.
Primeira parada, Potsdamer Platz, a tradicional praça desfigurada pelo Muro da Vergonha que, após a reunificação, tornou-se o símbolo da nova Berlim, com suas arrojadas construções pós-modernas. Depois fomos ver o complexo de museus no Kulturforum ao lado. Primeiro o Kunstgewerbemuseum (Museu de Artes Decorativas), que no Obergeschoβ (o andar superior) exibe objetos do Renascimento ao Art Déco, com destaque para a coleção de porcelanas alemãs antigas. Objetos da Idade Média ao Renascimento (de temática religiosa em grande número) estão no Erdgeschoβ (o andar térreo). Saltamos a parte de design contemporâneo, no Untergeschoβ (o subsolo). Não há audioguide no museu, e as explicações detalhadas dos objetos estão em alemão. Convém treinar bem o idioma de Goethe ou se munir de algum mecanismo tradutor portátil.
Em seguida (após uma pausa para cafezinho, sorvete e torta), a Gemäldegalerie (Galeria de Pìnturas) ao lado, com impressionante coleção de quadros europeus dos séculos XIII ao XVIII (os anos de ouro da arte pictórica). A Tageskarte de €8 permite visitar os dois museus. Beleza em excesso satura o cérebro. Para tirar o máximo proveito em visitas a museus com acervos tão vastos (e preciosos), em cada sala (neste são mais de sessenta) dou uma olhadela para captar o “espírito” da sala e depois me detenho em dois quadros, no máximo três. Só de Madonas de Rafael vi duas, e havia mais. E quantas outras Madonas rafaelescas existem pelos museus Europa afora! No MASP de Sampa temos uma Madona de Rafael que deve ser a única de todo o Hemisfério Sul.
Na saída fomos surpreendidos por um vento gelado e chuva forte, que enfrentamos com altivez, seguindo os rastros (em forma de uma fileira de paralelepípedos) do antigo muro, da Potsdamer Platz ao Portão de Brandemburgo. Vimos o velho Parlamento, que os asseclas de Hitler incendiaram para jogar a culpa nos comunistas, agora restaurado, acrescido de uma cúpula de vidro e servindo novamente de Parlamento da Alemanha reunificada. Fomos dar tchau à Unter den Linden. Próximo destino: Praga.

Telhados, torres e cúpulas de Praga
20 de junho
10:10 Berlin Hauptbahnhof. Enquanto estou sentado num banco da estação vigiando nossa bagagem — uma mala de bom tamanho mas com rodinhas de patins que dão ótima mobilidade; um mochilão que, graças aos meus exercícios diários de musculação em casa, carrego com facilidade; duas Kiplings; e um ou outro penduricalho — a Mi faz o tour das lojas. Chegamos com imensa antecedência: nessas coisas sou como o mineiro que nunca perde o trem. Com o Eurail Select Pass podemos viajar com todo o conforto na Primeira Classe e curtir o cenário entre Berlim e Praga. Esta cidade, livre da tirania comunista, voltou a ser um grande destino turístico. Optamos por fazer nossos percursos terrestres de trem, livrando-nos dos transtornos aéreos. Na Europa as estações ferroviárias ficam em pleno centro da cidade, servidas por metrô (como a Rodoviária paulista).
O trem passará por Dresden, cidade que, na Segunda Guerra Mundial, foi totalmente arrasada pelos bombardeios. Em vez de ficar eternamente lamentando o passado, como fazem alguns outros povos vítimas de calamidades, os alemães reconstruíram o país. A eficiência da mão-de-obra alemã impressiona. Num Pizza Hut onde ontem à noite comemos fatias de pizza, uma única funcionária dava conta de preparar as pizzas, servir os clientes, receber o dinheiro e dar o troco. E ainda por cima atendia em inglês os turistas não falantes do alemão. Atendia todos prontamente — e educadamente.
De Berlim a Praga desce-se para o sul. Depois de Dresden, o trem acompanhou por um bom trecho um aprazível rio, parando na cidade balneária de Bad Schandau. A certa altura, percebemos que o familiar alemão dera lugar a uma algaravia incompreensível que para mim era "grego": o idioma tcheco. No meio da tarde chegamos em Praga. É preciso cuidado para não saltar por engano na estação Praha Nadraži Holešovice, na periferia da cidade, em vez da estação central, Hlavi nádraží Praha.
Troquei uma notinha de 50 dólares que ganhei certa vez como pagamento de um passeio guiado no Rio pela moeda local, a coroa (koruna). Comprar passagem para ir de metrô ao hotel foi uma pequena aventura: as máquinas automáticas são de difícil manejo para um forasteiro, os guichês onde supostamente se vendem as passagens estavam vazios, mas enfim descobri que aqui em Praga as passagens são vendidas em quiosques de tabaco e jornais.
O hotel onde ficamos — INOS — foi um achado: um três estrelas com quarto amplo e confortável ao preço de um quarto de hostel: menos de €50 por noite. Isso porque fica num bairro residencial fora do Centro turístico. Mas eu havia previamente visto no Google Maps que ficava a 850 metros de uma estação de metrô e que pertinho de lá passavam bondes para o Centro.
Uma vez acomodados, rumamos ao Centro para uma primeira impressão da cidade — uma agradável surpresa!
Nos anos 80 eu já havia passado por Praga de trem, no meio da noite, indo de Budapeste a Berlim, mas naquele tempo poucos ocidentais se aventuravam a fazer turismo naquela que era uma das ditaduras comunistas mais repressivas do Leste Europeu. Na época, escrevi no diário de viagem:

Viajamos de trem de Budapeste a Berlim Oriental, através da Tchecoslováquia. Compartilhamos a cabine com um rapaz húngaro, que arranhava o alemão, de modo que pudemos nos comunicar. Viajava para Dresden (Alemanha Oriental). Quando eu disse: "Você vai para a Alemanha", foi taxativo: "República Democrática Alemã não é Alemanha; a verdadeira Alemanha é a Alemanha Federal; República Democrática Alemã é uma merda!"

Quando Milos Forman filmou Amadeus em Praga, minha curiosidade de conhecer a capital da antiga Boêmia aumentou. Agora resolvi matar a curiosidade. Mesmo assim, só programei dois dias lá, com medo de que se repetisse o fenômeno Dublin, cidade que, de repente, se tornou um destino turístico badalado e recomendado, mas que nos decepcionou um pouco (clique em Dublin no menu à direita).
A primeira impressão que se tem de Praga é de deslumbramento: em tudo — praças, prédios, pontes, fontes, monumentos — existe um toque artístico. Imagino que a Boêmia deva ter vivido uma Era de Ouro no passado para ostentar tantas construções refinadas. A ocupação nazista e o período comunista representaram um retrocesso, mas agora o país reencontrou seu rumo. O número de turistas na Cidade Velha é enorme: uma Babel de línguas, entre elas o português, que entreouvimos aqui e ali. Português do Brasil, como aliás por toda a Europa — nossos irmãos portugueses, que estão bem mais perto desses tesouros artísticos, aparentemente não aproveitam.
Impressão da Mi: "A cidade é uma gracinha, lotada de turistas, tem uma paisagem linda mas tem 1 milhão de lojas de lembranças pra uma cidade tão small, o pessoal aqui é + simpático do que na Alemanha. Praga é muito mais bonita do que eu imaginava e olha que é só o começo."

Pilsner Urquell
Praga, 21 de junho
Nossa intenção era visitar o complexo conhecido como Castelo de Praga, mas como não aceitavam cartão de crédito e nosso suprimento de coroas em espécie era insuficiente, deixamos para o dia seguinte. Como as placas indicativas são todas em tcheco, na verdade entramos no complexo pela “porta dos fundos”, como viríamos a descobrir no dia seguinte. Se tivéssemos chegado na entrada principal, lá teríamos conseguido pagar com cartão. De qualquer modo, a aceitação de cartões se restringe a hotéis, lojas e restaurantes mais sofisticados, de modo que é bom dispor de cash.
Munidos de nosso guia Guia Visual de Bolso de Praga editado pela Folha de São Paulo, fizemos uma longa caminhada pelo lado de cá (lado leste) do rio Vltava: Bairro Judeu, Cidade Velha e Cidade Nova. Do velho gueto judaico resta apenas um núcleo composto da Prefeitura Judaica (até 1850, o Bairro Judeu era uma cidade à parte), algumas velhas sinagogas — a mais antiga, a sinagoga Staronova, de 1270, é a mais antiga da Europa — e o velho cemitério judaico que remonta ao século XV. Também por falta de cash tivemos que deixar a visita para uma volta futura a Praga (os dois dias programados foram realmente insuficientes).
No início do século XX, o Bairro Judeu (com exceção do núcleo citado) foi objeto de uma espécie de “bota abaixo”, e na área surgiu um conjunto de prédios nos estilos cubista (formas geométricas) e art noveau. A sinagoga espanhola, da segunda metade do século XIX, em estilo mourisco, lembra um pouco o nosso Grande Templo Israelita carioca.
A Cidade Velha, adjacente ao Bairro Judeu, é um deslumbre para os olhos, com suas construções antigas em variados estilos, o Portão de Pólvora medieval, a Praça da Cidade Velha com suas barraquinhas de guloseimas onde você pode saborear a linguiça com pãozinho típica da região, a impressionante Prefeitura da Cidade Velha com seu relógio astronômico, a igreja barroca de São Nicolau (o barroco da Europa Central difere do nosso barroco de procedência ibérica), a igreja gótica de Nossa Senhora Diante de Týn, etc.
Num bar onde paramos para saborear uma pilsener um morador que estava almoçando contou um monte de coisas: o chope tcheco vem em três diferentes graduações alcoólicas, 10, 12 e 14 graus, alguns absintos ordinários vêm misturados com ópio ou outras drogas, o absinto autêntico é aquele com umas ervinhas dentro, existe uma vodca chamada Cannabis Sativa que vem com sementinhas de maconha (era verdade, vimos depois numa loja), etc.
O absinto é uma bebida de forte teor alcoólico (pode chegar a 70 graus) em voga na época dos pintores impressionistas (um dos quadros de Manet se chama “O Bebedor de Absinto”) que depois foi proibido em quase todo o mundo e que hoje está para Praga como o haxixe está para Amsterdam.
Na Cidade Nova destacam-se o Hotel Europa (art nouveau), a comprida Praça Venceslau com o monumento às vítimas do comunismo e o Museu Nacional ao fundo, e a Praça Carlos. Não nos aventuramos a provar da culinária tcheca. Vamos sobrevivendo à base de fatias de pizza (da Pizza Factory, deliciosas) e do fast food do McDonald’s, o que para nós não deixa de ser uma quebra da rotina, já que no Rio raramente vamos lá.

Belvedere
Praga, 22 de junho
Último dia em Praga. Sol forte quase o dia inteiro, com exceção de uma ligeira pancada de chuva de manhã enquanto cruzávamos a Ponte Carlos — a ponte velha (1357) para pedestres (hordas de turistas) sobre o rio com estátuas de santos nas laterais — e uma torrencial “chuva de verão” ao final do dia. Guarda-chuva é essencial para quem sai a passear por Praga.
Visitamos o complexo do Castelo de Praga, com destaque para a Catedral Gótica de São Vito, uma Catedral de Colônia em escala menor, cuja construção começou em 1344 e só terminou uns cem anos atrás. Impressão da Mi: "Uma graça gótica, é uma míni-Colônia, o gótico me impressiona demais."
Cada cidade com suas mazelas. Aqui vemos jovens (doentes? drogados?) mendigando em posição humilhante, prostrados no chão, mãos juntas implorando pela esmola, muitas vezes acompanhados de um cão. Uma última observação: em algumas ruas árvores odoríferas emitem um agradável perfume.

Centro de Viena e Catedral de São Estêvão
23 de junho
Viagem de trem de Praga a Viena, mais ao sul. Primeira classe do trem lotada, bom ter feito reserva dos lugares.
Por quatorze euros comprei a Wochenkarte, que dá direito a utilizar os transportes públicos de segunda a domingo. Mesmo sendo hoje quinta-feira, vale a pena: o bilhete para 72 horas custa €13,60. Mais uma vez, hotel na "periferia", mas relativamente perto do metrô, a um preço camarada (€51 pelo quarto de casal): Etap Hotel do grupo Accor, situado numa área perto do gasômetro que, com exceção da construção redonda de tijolos aparentes mais antiga junto à estação do metrô, está cheia de prédios comerciais de design moderno, com largas avenidas ou espaços não-edificados entre eles. Bem diferente da Viena histórica com que estamos familiarizados.
Um pulo ao Centro para uma primeira impressão: Catedral de São Estevão e entorno. Praga é graciosa, aconchegante. Viena é grandiosa, monumental, uma metrópole. Surpreendidos por uma dessas súbitas chuvas europeias. Comemos a autêntica e sesquicentenária Sachertorte no Café Sacher, uma espécie de Colombo vienense. Impressão da Mi: "Viena ganhou o selo do eu volto! Linda cidade."

Naturhistorisches Museum
Viena, 24 de junho
Ao acordarmos o tempo fechado fez com que decidíssemos visitar o Kunsthistorisches Museum (Museu da História da Arte — estação de metrô Museumquartier). Em qualquer cidade, museus são excelentes programas para dias chuvosos, e os museus das grandes capitais europeias são descomunais, você leva horas para ver. Só que o tempo aqui na Europa Central não é como no Brasil, que quando amanhece encoberto fica assim o dia todo, quando amanhece ensolarado idem. No momento em que chegamos no museu o sol já dava o ar de sua graça. Por toda parte a magnificência, a pompa da Era dos Habsburgos se faz notar, sobretudo em torno do Ring, a imponente avenida semicircular que em diferentes trechos assume diferentes nomes (Burgring, Opernring, etc.), aberta no século XIX, apogeu do Império Austro-Húngaro, no local da antiga muralha, derrubada.
Nos dois lados da Maria-Theresien-Platz, com o monumento à Imperatriz Maria Teresa ao centro, erguem-se os monumentais Kunsthistorisches Museum e Naturhistorisches Museum (Museu da História Natural), com altas cúpulas e fachadas neorrenascentistas, construídos entre 1872 e 1881 para abrigar as coleções imperiais. Aliás quase não há prédio na parte mais antiga de Viena que não tenha sua fachada belamente adornada em variados estilos: art noveau (Jugendstil), neorrenascentista, neobarroco, Biedermayer. É um prazer percorrer as ruas e contemplar os prédios, sem falar nas praças bem cuidadas e floridas, nas fontes que, ao contrário das nossas, jorram água (como é lógico que aconteça), etc.
O primeiro piso do Kunsthistorisches Museum abriga as coleções de antiguidades, que deixamos para o final e vimos com rapidez, pois já havíamos tomado um banho de antiguidades em Berlim. Destaque para os sarcófagos e múmias egípcias, os bustos romanos, as estatuetas de deuses greco-romanos. No segundo piso, a pinacoteca de pintores dos séculos XV ao XVIII merece ser vista com toda a calma do mundo. Uma das salas reúne uma magnífica coleção de quadros enormes de Rubens, pintor com uma perfeição técnica atingida por poucos. Outra sala reúne um tesouro de quadros do pintor flamengo Brueghel (um terço de sua obra), inclusive o interessante Kinderspiele (Brincadeiras Infantis, que eu e meus irmãos quando adolescentes chamávamos de Cidade da Bagunça — havia uma reprodução do quadro na nossa sala de jantar), e uma sala de quadros barrocos expostos à maneira pré-século XX cobrindo as quatro paredes de lado a lado e de alto a baixo.
Depois fomos ao parque de diversões Prater (estação de metrô Praterstern), onde existe talvez a roda gigante mais antiga do mundo, de 1897 (na verdade uma reconstrução da roda original, destruída num bombardeio na Segunda Guerra Mundial). Se não tivemos coragem de enfrentar os brinquedos radicais, tipo Playcenter, que fazem você rodar, subir, ficar de cabeça para baixo, despencar, chacoalhar, etc., divertimo-nos pra valer num trem-fantasma (também conhecido como casa-monstro) como aquele que tanto curti na adolescência no parque de diversões armado todos os verões em Teresópolis. Depois seguimos uma estação de metrô adiante (até Vorgartenstrasse) para vermos o Rio Danúbio.

Palácio de Schönbrunn e Fonte de Netuno
Viena, 25 de junho
Tempo bom, ideal para visitar Schönbrunn, palácio barroco ocre-amarelado que serviu de residência a uma sucessão de monarcas austríacos: desde a imperatriz Maria Teresa, mãe de Maria Antonieta, morta na guilhotina, até Carlos I, que em 1918 ali assinou a abdicação, abrindo caminho para a República. De seus mais de 1400 cômodos com decoração rococó 22 podem ser visitados no Imperial Tour (o Grand Tour permite visitar 40 salas, mas 22 são mais que suficientes). Na Grande Galeria, espelhada à maneira do Salão dos Espelhos de Versalhes, o divino Mozart, em sua primeira viagem a Viena aos seis anos, sentou-se no colo da imperatriz e pespegou-lhe um beijo no pescoço. Vale a pena ficar horas passeando pelos jardins em estilo francês, que cobrem uma área de 1,6 km2. A Fonte de Netuno é monumental. Sobre uma colina ao sul do castelo ergue-se a Gloriette, comemorando a vitória sobre os prussianos em 1757, onde num café comemos deliciosa torta e um chocolate com sorvete e chantili. Aliás as tortas são outra atração da cidade. Assim como em todo canto do Rio a gente depara com um bom botequim, aqui por toda parte encontramos um Cafe Konditorei, um Café Confeitaria, com tortas de dar água na boca. Impressão da Mi: "Comi tantas tortas e salsichas, aqui não tem arroz e feijão mas tem tanta delicinha..."


Como nessa época na Europa só anoitece lá pelas dez da noite, ainda deu para dar um rolê pelo Centro, comer um goulash e ouvir um concerto de órgão (sonífero de barriga cheia) na Karlskirsche.

Estátua de Mozart
Viena, 26 de junho
Último dia em Viena. O dia amanheceu bem encoberto mas aos poucos foi melhorando. Fizemos um enorme passeio por toda a cidade, combinando metrô, bonde e longos percursos a pé. Vimos o Stadtpark, com as estátuas de Schubert e Strauss (a original, em restauração, substituída por uma estátua "dublê"); Beethovenplatz, praça onde se ergue o monumento ao grande Beethoven; Belvedere, conjunto de dois palácios barrocos (Belvedere Superior e Inferior) e um jardim barroco do início do século XVIII; a Karlsplatz, onde fica a Karlskirche, igreja que mescla elementos clássicos e barrocos; Secession, primeiro prédio art nouveau da cidade; Hundertwasserhaus, um conjunto residencial moderno (1985) com uma concepção arquitetônica inusitada; a impressionante Prefeitura (Rathaus) em estilo neogótico; o monumental Parlamento em forma de templo grego; e o descomunal (haja adjetivos!) Hofburg, conjunto de palácios imperiais cuja construção começou no século XIII e que foram sendo ampliados até a queda da monarquia. E ainda deu para ver a estátua de Mozart no Burggarten anexo ao Hofburg e a casa onde Mozart morou de 1784 a 1787 pertinho da Catedral de São Estêvão.

Delícias austríacas
27 de junho
A viagem de trem de Viena a Munique ao som de Mozart (no meu MP3), sob um céu enfim sem nuvens, passando por bosques e vilarejos e riachos e igrejinhas rurais de contos de fadas sem nenhum sinal de miséria, em países onde a classe média constitui a maioria da população, faz surgir a pergunta: por que alguns países (depois de séculos de guerras e atrocidades) enfim chegaram lá enquanto outros...? (Responda se for capaz!)

Hofbräuhaus
Munique, 28 de junho
Primeiro dia em Munique hospedados na casa da Tita. De manhã ela nos deixou nas proximidades do Englischer Garten, o enorme parque em estilo inglês onde os muniquenses vão pegar sol, praticar jogging, levar os bebês para passear ou beber cerveja no Biergarten da Torre Chinesa. Os Biergarten (literalmente, jardins de cerveja) são cervejarias ao ar livre, sob as árvores, onde os alemães vêm passar momentos agradáveis nos poucos meses de trégua do frio. Enquanto consultávamos o mapa a caminho do parque uma ciclista (usa-se muito a bicicleta aqui, e em quase todas as vias existem pistas para bicicletas) parou e gentilmente perguntou se precisávamos de ajuda. Nosso primeiro contato com a gentileza muniquense. Também mais tarde na Marienplatz uma senhora já com certa idade nos abordou e exclamou em alemão (fazia um sol carioca, dando uma luminosidade especial à cidade): vejam como a cidade é bonita, o prédio da Prefeitura... E perguntou de onde vínhamos. No final do dia a caminho do Hofbräuhaus um senhor amalucado com um boné do Brasil, em meio a gargalhadas, falou mil e uma abobrinhas. Mas estou me adiantando.
Percorremos Munique de cabo a rabo (tudo a pé), vendo igrejas, parques, fontes, construções interessantes, Residenz, o carrilhão ao meio-dia na Prefeitura, o Virktualienmarkt (mercado de comestíveis), Fonte de Netuno, Frauenkirche (a Catedral de Nossa Senhora, interessante combinação de gótico tardio com cúpula renascentista), Königsplatz com suas construções em forma de templos gregos, etc.
Os problemas, onde estão os problemas? Se você ler os jornais ou conversar com alguém, ouvirá falar dos problemas: grupos radicais, o velho antissemitismo, impostos dos alemães financiando a bandalheira fiscal dos países periféricos da zona do euro, sei lá o quê. Mas percorrendo a cidade você não vê nenhuma mazela, nenhum sinal de miséria.
Encerramos com chave-de-ouro no Hofbräuhaus, a tradicional cervejaria (onde Hitler tramou o golpe fracassado de 1923) quadricentenária, com seus canecões de chope de um litro e pratos alemães típicos tipo salsicha, Sauerkraut (chucrute) e salada de batatas.

Salzburg
Salzburg, 29 de junho
Aproveitamos um dia do nosso passe de trem para visitar Salzburg. Como bons andarilhos, fomos a pé da estação ferroviária até a Altstadt (a Cidade Histórica) e depois de volta, mas na ida talvez devêssemos ter poupado energia pegando o ônibus na frente da estação ferroviária até o Centro. Na volta, aí sim, é gostoso vir a pé devagarinho ao longo da margem do rio, atravessar a ponte em frente ao Mirabellgarten (Jardim Mirabell), contemplar os jardins floridos em estilo geométrico francês e depois subir a Reinerstraβe até a estação (veja no Google Maps, imprima e leve na viagem). Sol digno do Rio de Janeiro, boné e/ou óculos de sol e protetor solar são acessórios fundamentais, bermuda cairia bem mas a gente quando vem à Europa acha que não vai precisar.
Na Europa a gente vê palácios, castelos, igrejas de épocas remotas, mas em Salzburg impressiona o número de prédios residenciais construídos antes que o Brasil sequer tivesse sido "descoberto".
Uma das maiores atrações da cidade é a Festung Hohensalzburg, fortaleza encarapitada no alto de uma rocha, que, com suas muralhas a prumo e vários portões fortificados, antes da invenção das armas de fogo era inexpugnável. Tanto que, numa revolta camponesa do princípio do século XV, o príncipe-arcebispo ali se refugiou e permaneceu incólume até a chegada, semanas depois, de reforços de mercenários.


Num agradável Biergarten na encosta do morro do castelo provamos enfim um Wiener Schnitzel decente — aquele do Prater em Viena tinha mais milanesa do que bife. Na casa onde nasceu Mozart vale a pena recordar (ou aprender) os eventos de sua biografia, ver quadros do músico e de sua família, objetos pessoais como seu violino de infância, etc.
Assim foi nosso dia em Salzburg.

Schloss Neuschwanstein
Munique, 30 de junho
Observação no trem a caminho do Castelo de Neuschwanstein: os chineses invadiram a Europa. Nos anos 70 eram os americanos e nos 80, os japoneses, lembro bem. Os chineses se orientam por aqui como se estivessem em casa. Será que nós lá na China nos orientaríamos igualmente bem? Fim da observação.
Passeio a Neuschwanstein, o castelo em meio às montanhas escarpadas e florestas de pinheiros que o Rei Ludwig II da Baviera mandou construir para só desfrutar dele por poucos dias: tendo sido diagnosticado mentalmente incapaz por uma junta de psiquiatras, ele e o psiquiatra que o acompanhava foram achados mortos, flutuando no Lago Starnberg, em condições misteriosas. A decoração suntuosa do castelo (cujo segundo andar ficou inacabado) evoca lendas germânicas medievais que foram temas de óperas de Wagner, de quem o rei foi admirador e patrocinador.
Como chegar: de Munique pega-se um trem até a cidade de Füssen, no extremo sul do país. Os trens saem de hora em hora (alguns horários: 8:52, 9:51, 10:51). Alguns vão direto a Füssen (por exemplo, os de 8:52 e 10:51), em outros é preciso baldear em Buchloe. A forma mais econômica é comprar o Bayern Ticket, válido por um dia para viagens ferroviárias na Baviera. Em frente à estação de trem de Füssen um ônibus conduz a Hohenschwangau, local do Ticket Center para compra de ingressos para o castelo. Do Ticket Center anda-se uns 30 minutos pela floresta até o castelo no alto de um penhasco. É só seguir a horda de turistas que não tem erro.

München: Max-Joseph Platz
Munique, 1o de julho
De manhã abriu o maior sol. Escaldados pelo calor dos dois primeiros dias aqui, dispensamos casaco e guarda-chuva. Erro fatal. O tempo de repente mudou, e a chuva e frio acabaram fazendo com que eu, o maior anticonsumista da face da Terra, que sempre achei que turista deve se concentrar nas atrações locais sem perder tempo com compras, acabasse adorando entrar nas lojas (quentinhas). Comprei o presente do meu filho (uma camisa oficial do Bayern de Munique) e os temperos que sempre gosto de trazer quando porventura venho parar na Alemanha: Meerrettich (raiz-forte), Senf (mostarda), Dill (endro), excelente tempero para saladas de batata, e Kümel (cominho em grãos). O tempo inclemente também fez com que passássemos um bom tempo saboreando o melhor Apfelstrudel da face da Terra, acompanhado de uma montanha de Sahne (creme de chantili) e, em seguida, uma Erdbeeren Zabaione, espécie de fatia de bolo de casamento de morango, na Rischart, confeitaria com várias filiais em Munique que recomendo para quem aqui vier. Na saída de um supermercado um bando de brasileiros também tiritava de frio — caíram na mesma armadilha que nós de achar que o sol de manhã significava sol o dia inteiro. No fim da tarde o sol voltou — tarde demais! À noite jantar de família num restaurante italiano.

Trens de alta velocidade na estação de Frankfurt
2 de julho
Viagem de ICE — Intercity Express, trem de alta velocidade, o tal de trem-bala que há décadas prometem implantar entre Rio e Sampa — de Munique a Frankfurt. Mais de quinhentos quilômetros em 3 horas e 14 minutos. Na viagem à Europa vivemos o “aqui e agora” preconizado pelos místicos orientais. A rotina pré e pós-viagem se perde nas brumas. O dia é vivido plenamente do momento em que se acorda ao momento em que se cai "morto" na cama.
Trem partiu rigorosamente no horário, como é de praxe por aqui, mas devido a problemas técnicos, chegou em Frankfurt com meia hora de atraso. Em Frankfurt fomos pelo S-Bahn (o trem suburbano) até Kronberg, onde minha tia Helga, irmã de minha prematuramente falecida mamãe, reside há década e meia num Seniorenheim, um lar de idosos confortável, depois de ter passado grande parte da vida no Brasil.

Frankfurt: Margem do Rio Meno (Main)
3 de julho
No final da manhã tínhamos um encontro marcado (pela titia) com uma arquivista do Museu Judaico de Frankfurt, que nos mostrou o museu em geral e uma antiga árvore genealógica de prata que, por grande parte de minha vida, eu via no apartamento de minha vovó e que minha tia doou ao museu. Demos uma volta pelo centro histórico, percorremos a orla do Rio Meno, que no domingo funciona como área de lazer, atravessamos o rio numa ponte antiga em cuja grade casais apaixonados prendem cadeados com seus nomes gravados e depois jogam a chave no rio para que seu amor dure para sempre, do lado de lá do rio pegamos o metrô de volta à estação de trem, de onde retornamos a Kronberg.
O centro de Frankfurt, hoje não muito cheio por ser domingo, lembra um pouco o Centro de Sampa com sua variedade humana, sujeira nada europeia, pedintes e grupos de mendigos.

Catedral de Colônia
4 de julho
Madrugamos para cumprir um roteiro puxado. Primeiro uma peregrinação a Colônia, obra monumental que tanto nos impressionou quatro anos atrás. Inacreditável o tempo que levou para ser construída: de 1248 a 1880 — obra de igreja! Impressiona também o postal que vimos de Köln ao final da guerra, toda bombardeada, apenas com a catedral incólume — como meu falecido parente Ludwig contou que viu ao passar por lá de trem depois de libertado de Auschwitz.
O lógico seria prosseguirmos de Colônia para Paris, mas aí o trem passaria pela Bélgica, país não incluído no nosso Rail Pass, e teríamos de pagar um acréscimo salgado. Por isso, de Köln voltamos a Frankfurt para de lá viajarmos a Paris. Adeus idioma alemão, que luto por toda a vida para dominar. Que venham os franceses!

Nos meus álbuns do Picasa você encontra outras fotos de Berlim, Praga, Viena, Munique, Salzburg, Neuschwanstein, Frankfurt e Colônia. Clique no nome da cidade, ou clique aqui para ver a coleção de todos os álbuns.

2 comentários:

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

adooooooooorei!!!!!!!!!
E eé claro que voltarei sempre. dgustei cada palavra sua como se fosse possível engasgar. Amo BERLIM, minha mãe nasceu aí e costumo visitar e andar por aí todo ano
Adorei o post, perfeito.
Abraços

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

AMEI A GIRAFA!
QUER SABER QUERIDO ABURRINHA AZQUI NÃO ACHOU O BLOG DOS CEMITERIOS.
MAS TROCANDO DE ASSUNTO TENHO NA MINHA CASA UM SALA QUE É UM RÉPLICA DO CASTELO DE NEUSCHWANTEIN, UM HOMEM SEGURANDO UMA PORTA[ DA SALA DE MÚSICA DO CASTELO, ] COLOQUEI NA SALA DE JANTAR E É FEITO EM PEDRA.AMO E SEI TUDO SOBRE O REI LUDWIG.
BEIJOS MEU NOVO AMIGO.