VIAGEM À EUROPA 2011: BERLIM, PRAGA, VIENA, MUNIQUE, SALZBURG, FRANKFURT, COLÔNIA, PARIS E LONDRES

Zoológico de Berlim

Nota: Palavras em azul são links.

PARTE 1: BERLIM, PRAGA, VIENA, MUNIQUE, SALZBURG, FRANKFURT, COLÔNIA

Berlim, 15 de junho de 2011

Dois anos atrás, o desastre do voo da Air France duas semanas antes de nosso embarque, numa rota (Brasil-Europa) que em décadas de aviação sempre fora segura, nos deixou pensando duas vezes se deveríamos realmente “arriscar nossas vidas” e enfrentar o misterioso fenômeno meteorológico que se interpunha entre nós e o Velho Continente. Acabamos fazendo a viagem dos sonhos.

Desta vez, uma misteriosa epidemia de e coli na Alemanha rapidamente debelada e as revelações da caixa preta do avião da Air France, resgatada no fundo do mar, revelando que o acidente foi por culpa dos pilotos, não chegaram a abalar nossos nervos. Enfrentamos com valentia o cansativo translado aéreo Cidade Maravilhosa-Velho Mundo e eis que, depois de enfrentarmos a rigorosa segurança de Heathrow (onde baldeamos) e as autoridades de imigração alemãs, estamos de novo na Europa!

Chegada como planejei pesquisando na Internet, no Google Maps etc. Do aeroporto (Tegel) um ônibus e depois o metrô, com uma baldeação, nos deixaram pertinho do hotel. Da janela de nosso quarto no confortável Hotel Ibis Berlin Messe contemplo a cidade. Fiz a reserva com quase nove meses de antecedência pagando a bagatela de 50 euros por noite pelo quarto de casal (o café da manhã custa mais €5 por pessoa).

No primeiro dia em Berlim, o zoológico. O zoológico de Berlim é, dentre todos os zoológicos do mundo, o que abriga o maior número de espécies de animais. Vê-se de tudo: ursos polares (dorminhocos), elegantes pinguins-imperadores, um ursinho panda (meio deprê porque perdeu recentemente a "esposa"), morcegos, corujas, recifes de corais, sapos, orangotangos, gorilas, formigas, peixes fosforescentes das profundezas abissais, animais noturnos, nosso pirarucu amazônico, uma variedade de ursos, enfim, todo tipo de bicho. Passeio para um dia inteiro.

Atração à parte, as criancinhas alemãs, loirinhas de olhinhos azuis (vez ou outra aparece uma criança negra ou oriental para fazer um contraponto), muitas em excursões escolares, com seus bonezinhos identificadores. O parque em si também é bonito, com flores, vegetação diferente da nossa (a não ser onde se quer simular um hábitat tropical), pavilhões, num estilo romântico alemão do século XIX.

Impressão da Mi: "Vi todos os animais que eu queria, coruja branca, há muitos tipos de coruja, o aquário de lá é lindo principalmente a parte dos corais, é surpreendente as cores que há no oceano. Vi o pandinha que é fofo, leões gigantes, urso branco, outros ursos, bicho-folha, lacraias, águia americana, é muito bicho..."

Ao final do dia (nesta época só escurece quase às dez da noite) um passeiozinho à Unter den Linden e ao Portão de Brandenburgo, que já foi o símbolo da Berlim dividida, acabou se prolongando além do planejado, porque obras num trecho da linha 2 do metrô nos obrigaram a fazer uma baldeação que em si não tinha mistério nenhum, mas vai entender esse negócio explicado via alto-falante em alemão!

O dinheiro aqui se esvai — são 40 euros para duas pessoas entrarem no Zoológico, 68 euros pelo Welcome Card Museum, etc. É preciso exercer o controle férreo de um Ministro da Economia, por um lado, e ser desprendido em relação ao dinheiro como um monge budista, por outro (ou seja, não chorar o dinheiro derramado).

Alte Nationalgalerie

Berlim, 16 de junho

Segundo dia em Berlim. Os museus das antigas capitais imperiais europeias ostentam acervos descomunais, resultantes de séculos de coleções por suas famílias imperiais. O ideal é visitar um só museu por dia, de preferência começando de manhã, com toda a calma do mundo. Mas devido ao grande número de atrações em Berlim e aos poucos dias de estadia (cinco) — e para aproveitarmos o Welcome Card Museum Island, que por €34 dá direito a utilizar o sistema de transportes e visitar de graça todos os museus da Ilha dos Museus — resolvemos hoje matar três coelhos de uma só cajadada. Após visitarmos a impressionante e imponente Berliner Dom, a catedral neoclássica construída entre 1747 e 1750 e reaberta em 1993 após 40 anos de trabalhos de restauração, de cuja cúpula se tem uma bonita vista da cidade, atacamos três museus em série (com pequenas pausas para beber água e descansar entre um e outro):

1) Neues Museum (Museu Novo): A construção original de meados do século XIX foi fortemente danificada na Segunda Guerra Mundial. Após permanecer 70 anos fechado, foi restaurado segundo projeto do arquiteto britânico David Chipperfield, vencedor de um concurso internacional. Abriga o acerco do antigo Museu Egípcio, cujo objeto mais famoso é a cabeça da rainha Nefertiti, e objetos da coleção de antiguidades clássicas. Pulamos o terceiro andar (basicamente dedicado à pré-história), começamos pelo segundo (Roma, Egito, etc.), descemos ao térreo (com destaque para a Troia de Schliemann e os achados arqueológicos da ilha de Chipre) e encerramos no subsolo (costumes e crenças mortuárias etc.)

2) Alte Nationalgalerie (Galeria Nacional Antiga): Pinturas e esculturas principalmente alemãs do século XIX, abrangendo as escolas romântica (estilo em que os alemães se destacaram também na música , literatura e filosofia), realista (naturezas mortas, paisagens) e impressionista.

3) Pergamonmuseum: Museu constituído de três coleções: antiguidades clássicas (Antikensammlung), Museu do Oriente Próximo (Vorderasiatisches Museum) e Museu de Arte Islâmica. Impressionantes o Altar de Pérgamo de cerca de 170 a.C., o portão babilônico de Ishtar do século VI a.C. e o portão do Mercado de Mileto do século II. Todas essas estruturas monumentais foram reconstruídas. Assim você vê elementos (estátuas, frisos, etc.) originais combinados com acréscimos modernos, resultando num todo bem mais interessante do que se você visse apenas os fragmentos antigos (que é o que você vê no British Museum de Londres).

Depois um "pulo" à Kurfürstendamm e Tauentzienstrasse, o coração da antiga Berlim Ocidental. Duas décadas após a queda do comunismo, o contraste entre as Berlins ex-ocidental e ex-oriental ainda é grande. Em diário de viagem de 1985 quando visitei Berlim Oriental, escrevi estas reflexões que ainda me parecem atuais:

Passeio para Berlim Oriental.
Atravessamos a fronteira na estação de Friedrichstrasse, percorremos a Unter den Linden até a Torre de Televisão, de onde se descortina uma vista panorâmica da cidade, visitamos o museu da História Alemã.
Já é clichê comparar o colorido de Berlim Ocidental – construções modernas, trânsito intenso, letreiros por toda parte, vitrines sofisticadas, inferninhos, restaurantes de todos os tipos, pessoas com trajes os mais variados – com a austeridade de Berlim Oriental – poucos carros, na maioria Ladas, de fabricação soviética, pessoas vestidas sem imaginação, propaganda comunista onipresente.
Uma mesma cidade e, no entanto, mundos completamente diferentes, praticamente sem comunicação!
Sentado num bar ao ar livre, custava-me acreditar que aquele garçom atencioso que me trouxera a cerveja, os dois amigos da mesa em frente conversando entusiasticamente, todas aquelas pessoas alegres, comendo salsichas e bebendo, todos eles eram cidadãos de um regime ditatorial, que teve de construir um Muro para evitar a evasão da população.
Muito já se escreveu sobre as vantagens e desvantagens do comunismo ou do capitalismo. Passeando por Berlim Oriental, também formulei reflexões sobre o tema. O comunismo é produto de mentalidades idealistas, que se propuseram a melhorar o mundo. Os comunistas russos de 1917 estavam imbuídos das melhores intenções. Nos primeiros anos do novo regime, a Rússia Soviética era símbolo de progresso: Revolução Sexual, emancipação das minorias, vanguarda artística, liberdade de expressão. Alguma coisa saiu errada. Sabemos que nos países comunistas as necessidades básicas da população são atendidas: emprego, habitação, saúde. Porém tudo que existe de criativo, em termos culturais ou tecnológicos: o jazz, a computação, a tecnologia do “laser”, o dodecafonismo, o ônibus espacial, são produto de artistas, cientistas, intelectuais de países capitalistas.

Alexanderplatz

Berlim, 17 de junho (sexta-feira)

Terceiro dia em Berlim. Às dez da manhã eu tinha um encontro marcado com um funcionário do setor de arquivos do Museu Judaico para doar velhos documentos de minhas famílias paterna e materna, bem como um álbum de fotos do meu avô materno da Primeira Guerra Mundial. O Museu Judaico de Berlim — cidade que foi o coração do nazismo — no bairro de Kreuzberg (não longe da estação de metrô Hallesches Tor), com sua concepção arquitetônica arrojada (são dois prédios contíguos, um antigo, por onde se entra, outro pós-moderno, acessado por uma passagem subterrânea) e concepção museológica criativa, é uma grande atração turística da cidade. O museu conta a história do povo judaico — um povo sui generis que legou Cristo à humanidade — por terras alemãs. A loucura da perseguição e posterior extermínio sistemático, em escala industrial (com eficiência alemã) da população judaica europeia é enfocada através de casos concretos, específicos — com fotos, cartas, objetos, trechos de diários...

De lá fomos, em parte a pé, em parte de metrô, até a Alexanderplatz, que dá nome ao clássico romance de Döblin, Berlin Alexanderplatz (que virou filme de Fassbinder) e que foi a praça principal da antiga Berlim Oriental. De lá descemos a Karl Liebknecht Str. passando pela Marienkirche (Igreja de Santa Maria) e pela esplendorosa fonte de Netuno, neobarroca. Visitamos o espetacular DDR Museum (Museu da República Democrática Alemã), que mostra de forma interativa a história e o cotidiano da experiência socialista em território alemão. Embora inspirada por nobres ideais, acabou descambando numa prisão coletiva e num Estado policial. No DDR Restaurant anexo comemos a KETWURST (a “ketschup” Wurst, o correspondente na DDR ao hot dog capitalista) com uma Berliner Bürgerbräu Rotkehlchen, cerveja tradicional que foi muito apreciada na Alemanha Oriental. Descemos a tradicional Unter den Linden e visitamos o Memorial dos Judeus Assassinados na Europa (o Museu do Holocausto), constituído de 2711 blocos de concreto (estelas) de diferentes alturas e um Centro de Informações com histórias de cortar o coração das vítimas (entre elas crianças) da fúria insana que se abateu sobre a terra de Goethe e Beethoven.

Schloss Charlottenburg e estátua do Grande Eleitor Frederico Guilherme

Berlim, 18 de junho

Diariamente tomamos um reforçado café da manhã no hotel que nos permite rodar o dia inteiro sem precisarmos nos preocupar com a alimentação, e no meio ou final da tarde uma salsicha com pão (Wurst mit Brötchen) — as salsichas aqui são deliciosas e baratíssimas — e à noite um chocolate — delícia o chocolate europeu — matam o pouco de fome residual. Além disso sempre levamos conosco uma garrafa de litro e meio de água mineral, que no supermercado custa menos de um euro. Assim nos mantemos sempre hidratados, pois o clima aqui é mais seco do que no Brasil.

De manhã fomos direto ao Schloss Charlottenburg (Palácio Charlottenburg — saltar na estação de metrô Sophie-Charlotte Platz e subir a Schlossstrasse). Construído originalmente por Frederico I, primeiro rei da Prússia, como residência de verão para sua mulher Sophie Charlotte, foi ampliado por seus sucessores. Impactantes o Porzellankabinett (Gabinete das Porcelanas - cartão postal abaixo), com mais de 2900 peças de porcelana (não mais as originais, destruídas na Segunda Guerra Mundial) e, na nova ala (Neuer Flügel) em estilo rococó acrescentada por Frederico, o Grande, a Goldene Galerie (Galeria Dourada), com espelhos ao longo das paredes como no Salão dos Espelhos de Versalhes.



Depois fomos à Hauptbahnhof (Estação Ferroviária Principal) fazer as reservas de lugares para as nossas viagens de trem. No Brasil adquiri pelo site da Rail Europe um Eurail Select Pass válido para 6 dias de viagens de trem (dentro de um intervalo de 2 meses) pela Áustria, República Tcheca, França e Alemanha. Como nessa época (fim de primavera, início de verão) o movimento é grande, convém reservar os lugares nos trens, o que não consegui fazer pelo site da Rail Europe (cheguei a escrever uma carta a um site de defesa do consumidor reclamando). Mas há males que vêm para o bem: as reservas feitas aqui custaram a metade do que teriam custado pelo site.

Finalmente fomos visitar o Gedenkstätte Berliner Mauer (Bernauer Strasse, 111 — ao lado da estação Nordbahnhof da S-Bahn), memorial que homenageia as 192 pessoas que morreram tentando atravessar o muro. Após a reunificação é compreensível que os berlinenses tenham derrubado aquela absurda barreira, mas alguns fragmentos sobrevivem na área do memorial. Fotos mostram não só as vítimas — predominantemente jovens, até crianças — mas também as barbaridades, as arbitrariedades do regime socialista, como a derrubada de uma igreja inteira que se encontrava na rota do muro, a remoção de parte das sepulturas de um cemitério que idem. Pelo menos para os alemães, depois das experiências do nacional-socialismo e do socialismo no estilo soviético, SOCIALISMO NUNCA MAIS!

Potsdamer Platz e um pedacinho do Muro.  

Berlim, 19 de junho (domingo)

Enfim a chuva prevista para a quinta-feira chegou (ontem já havia chovido um pouquinho). Previsão do tempo é a mesma imprecisão no mundo inteiro. Sair sem agasalho por aqui é arriscado — as temperaturas podem cair de uma hora para outra.

Primeira parada, Potsdamer Platz, a tradicional praça desfigurada pelo Muro da Vergonha que, após a reunificação, tornou-se o símbolo da nova Berlim, com suas arrojadas construções pós-modernas. Depois fomos ver o complexo de museus no Kulturforum ao lado. Primeiro o Kunstgewerbemuseum (Museu de Artes Decorativas), que no Obergeschoβ (o andar superior) exibe objetos do Renascimento ao Art Déco, com destaque para a coleção de porcelanas alemãs antigas. Objetos da Idade Média ao Renascimento (de temática religiosa em grande número) estão no Erdgeschoβ (o andar térreo). Saltamos a parte de design contemporâneo, no Untergeschoβ (o subsolo). Não há audioguide no museu, e as explicações detalhadas dos objetos estão em alemão. Convém treinar bem o idioma de Goethe ou se munir de algum mecanismo tradutor portátil.

Em seguida (após uma pausa para cafezinho, sorvete e torta), a Gemäldegalerie (Galeria de Pìnturas) ao lado, com impressionante coleção de quadros europeus dos séculos XIII ao XVIII (os anos de ouro da arte pictórica). A Tageskarte de €8 permite visitar os dois museus. Beleza em excesso satura o cérebro. Para tirar o máximo proveito em visitas a museus com acervos tão vastos (e preciosos), em cada sala (neste são mais de sessenta) dou uma olhadela para captar o “espírito” da sala e depois me detenho em dois quadros, no máximo três. Só de Madonas de Rafael vi duas, e havia mais. E quantas outras Madonas rafaelescas existem pelos museus Europa afora! No MASP de Sampa temos uma Madona de Rafael que deve ser a única de todo o Hemisfério Sul.

Na saída fomos surpreendidos por um vento gelado e chuva forte, que enfrentamos com altivez, seguindo os rastros (em forma de uma fileira de paralelepípedos) do antigo muro, da Potsdamer Platz ao Portão de Brandemburgo. Vimos o velho Parlamento, que os asseclas de Hitler incendiaram para jogar a culpa nos comunistas, agora restaurado, acrescido de uma cúpula de vidro e servindo novamente de Parlamento da Alemanha reunificada. Fomos dar tchau à Unter den Linden. Próximo destino: Praga.

Telhados, torres e cúpulas de Praga

20 de junho

10:10 Berlin Hauptbahnhof. Enquanto estou sentado num banco da estação vigiando nossa bagagem — uma mala de bom tamanho mas com rodinhas de patins que dão ótima mobilidade; um mochilão que, graças aos meus exercícios diários de musculação em casa, carrego com facilidade; duas Kiplings; e um ou outro penduricalho — a Mi faz o tour das lojas. Chegamos com imensa antecedência: nessas coisas sou como o mineiro que nunca perde o trem. Com o Eurail Select Pass podemos viajar com todo o conforto na Primeira Classe e curtir o cenário entre Berlim e Praga. Esta cidade, livre da tirania comunista, voltou a ser um grande destino turístico. Optamos por fazer nossos percursos terrestres de trem, livrando-nos dos transtornos aéreos. Na Europa as estações ferroviárias ficam em pleno centro da cidade, servidas por metrô (como a Rodoviária paulista).

O trem passará por Dresden, cidade que, na Segunda Guerra Mundial, foi totalmente arrasada pelos bombardeios. Em vez de ficar eternamente lamentando o passado, como fazem alguns outros povos vítimas de calamidades, os alemães reconstruíram o país. A eficiência da mão-de-obra alemã impressiona. Num Pizza Hut onde ontem à noite comemos fatias de pizza, uma única funcionária dava conta de preparar as pizzas, servir os clientes, receber o dinheiro e dar o troco. E ainda por cima atendia em inglês os turistas não falantes do alemão. Atendia todos prontamente — e educadamente.

De Berlim a Praga desce-se para o sul. Depois de Dresden, o trem acompanhou por um bom trecho um aprazível rio, parando na cidade balneária de Bad Schandau. A certa altura, percebemos que o familiar alemão dera lugar a uma algaravia incompreensível que para mim era "grego": o idioma tcheco. No meio da tarde chegamos em Praga. É preciso cuidado para não saltar por engano na estação Praha Nadraži Holešovice, na periferia da cidade, em vez da estação central, Hlavi nádraží Praha.

Troquei uma notinha de 50 dólares que ganhei certa vez como pagamento de um passeio guiado no Rio pela moeda local, a coroa (koruna). Comprar passagem para ir de metrô ao hotel foi uma pequena aventura: as máquinas automáticas são de difícil manejo para um forasteiro, os guichês onde supostamente se vendem as passagens estavam vazios, mas enfim descobri que aqui em Praga as passagens são vendidas em quiosques de tabaco e jornais.

O hotel onde ficamos — INOS — foi um achado: um três estrelas com quarto amplo e confortável ao preço de um quarto de hostel: menos de €50 por noite. Isso porque fica num bairro residencial fora do Centro turístico. Mas eu havia previamente visto no Google Maps que ficava a 850 metros de uma estação de metrô e que pertinho de lá passavam bondes para o Centro.

Uma vez acomodados, rumamos ao Centro para uma primeira impressão da cidade — uma agradável surpresa!

Nos anos 80 eu já havia passado por Praga de trem, no meio da noite, indo de Budapeste a Berlim, mas naquele tempo poucos ocidentais se aventuravam a fazer turismo naquela que era uma das ditaduras comunistas mais repressivas do Leste Europeu. Na época, escrevi no diário de viagem:

Viajamos de trem de Budapeste a Berlim Oriental, através da Tchecoslováquia. Compartilhamos a cabine com um rapaz húngaro, que arranhava o alemão, de modo que pudemos nos comunicar. Viajava para Dresden (Alemanha Oriental). Quando eu disse: "Você vai para a Alemanha", foi taxativo: "República Democrática Alemã não é Alemanha; a verdadeira Alemanha é a Alemanha Federal; República Democrática Alemã é uma merda!"

Quando Milos Forman filmou Amadeus em Praga, minha curiosidade de conhecer a capital da antiga Boêmia aumentou. Agora resolvi matar a curiosidade. Mesmo assim, só programei dois dias lá, com medo de que se repetisse o fenômeno Dublin, cidade que, de repente, se tornou um destino turístico badalado e recomendado, mas que nos decepcionou um pouco (clique em Dublin no menu à direita).

A primeira impressão que se tem de Praga é de deslumbramento: em tudo — praças, prédios, pontes, fontes, monumentos — existe um toque artístico. Imagino que a Boêmia deva ter vivido uma Era de Ouro no passado para ostentar tantas construções refinadas. A ocupação nazista e o período comunista representaram um retrocesso, mas agora o país reencontrou seu rumo. O número de turistas na Cidade Velha é enorme: uma Babel de línguas, entre elas o português, que entreouvimos aqui e ali. Português do Brasil, como aliás por toda a Europa — nossos irmãos portugueses, que estão bem mais perto desses tesouros artísticos, aparentemente não aproveitam.

Impressão da Mi: "A cidade é uma gracinha, lotada de turistas, tem uma paisagem linda mas tem 1 milhão de lojas de lembranças pra uma cidade tão small, o pessoal aqui é + simpático do que na Alemanha. Praga é muito mais bonita do que eu imaginava e olha que é só o começo."

Pilsner Urquell

Praga, 21 de junho

Nossa intenção era visitar o complexo conhecido como Castelo de Praga, mas como não aceitavam cartão de crédito e nosso suprimento de coroas em espécie era insuficiente, deixamos para o dia seguinte. Como as placas indicativas são todas em tcheco, na verdade entramos no complexo pela “porta dos fundos”, como viríamos a descobrir no dia seguinte. Se tivéssemos chegado na entrada principal, lá teríamos conseguido pagar com cartão. De qualquer modo, a aceitação de cartões se restringe a hotéis, lojas e restaurantes mais sofisticados, de modo que é bom dispor de cash.

Munidos de nosso guia Guia Visual de Bolso de Praga editado pela Folha de São Paulo, fizemos uma longa caminhada pelo lado de cá (lado leste) do rio Vltava: Bairro Judeu, Cidade Velha e Cidade Nova. Do velho gueto judaico resta apenas um núcleo composto da Prefeitura Judaica (até 1850, o Bairro Judeu era uma cidade à parte), algumas velhas sinagogas — a mais antiga, a sinagoga Staronova, de 1270, é a mais antiga da Europa — e o velho cemitério judaico que remonta ao século XV. Também por falta de cash tivemos que deixar a visita para uma volta futura a Praga (os dois dias programados foram realmente insuficientes).

No início do século XX, o Bairro Judeu (com exceção do núcleo citado) foi objeto de uma espécie de “bota abaixo”, e na área surgiu um conjunto de prédios nos estilos cubista (formas geométricas) e art noveau. A sinagoga espanhola, da segunda metade do século XIX, em estilo mourisco, lembra um pouco o nosso Grande Templo Israelita carioca.

A Cidade Velha, adjacente ao Bairro Judeu, é um deslumbre para os olhos, com suas construções antigas em variados estilos, o Portão de Pólvora medieval, a Praça da Cidade Velha com suas barraquinhas de guloseimas onde você pode saborear a linguiça com pãozinho típica da região, a impressionante Prefeitura da Cidade Velha com seu relógio astronômico, a igreja barroca de São Nicolau (o barroco da Europa Central difere do nosso barroco de procedência ibérica), a igreja gótica de Nossa Senhora Diante de Týn, etc.

Num bar onde paramos para saborear uma pilsener um morador que estava almoçando contou um monte de coisas: o chope tcheco vem em três diferentes graduações alcoólicas, 10, 12 e 14 graus, alguns absintos ordinários vêm misturados com ópio ou outras drogas, o absinto autêntico é aquele com umas ervinhas dentro, existe uma vodca chamada Cannabis Sativa que vem com sementinhas de maconha (era verdade, vimos depois numa loja), etc.

O absinto é uma bebida de forte teor alcoólico (pode chegar a 70 graus) em voga na época dos pintores impressionistas (um dos quadros de Manet se chama “O Bebedor de Absinto”) que depois foi proibido em quase todo o mundo e que hoje está para Praga como o haxixe está para Amsterdam.

Na Cidade Nova destacam-se o Hotel Europa (art nouveau), a comprida Praça Venceslau com o monumento às vítimas do comunismo e o Museu Nacional ao fundo, e a Praça Carlos. Não nos aventuramos a provar da culinária tcheca. Vamos sobrevivendo à base de fatias de pizza (da Pizza Factory, deliciosas) e do fast food do McDonald’s, o que para nós não deixa de ser uma quebra da rotina, já que no Rio raramente vamos lá.

Belvedere

Praga, 22 de junho

Último dia em Praga. Sol forte quase o dia inteiro, com exceção de uma ligeira pancada de chuva de manhã enquanto cruzávamos a Ponte Carlos — a ponte velha (1357) para pedestres (hordas de turistas) sobre o rio com estátuas de santos nas laterais — e uma torrencial “chuva de verão” ao final do dia. Guarda-chuva é essencial para quem sai a passear por Praga.

Visitamos o complexo do Castelo de Praga, com destaque para a Catedral Gótica de São Vito, uma Catedral de Colônia em escala menor, cuja construção começou em 1344 e só terminou uns cem anos atrás. Impressão da Mi: "Uma graça gótica, é uma míni-Colônia, o gótico me impressiona demais."

Cada cidade com suas mazelas. Aqui vemos jovens (doentes? drogados?) mendigando em posição humilhante, prostrados no chão, mãos juntas implorando pela esmola, muitas vezes acompanhados de um cão. Uma última observação: em algumas ruas árvores odoríferas emitem um agradável perfume.

Centro de Viena e Catedral de São Estêvão

23 de junho

Viagem de trem de Praga a Viena, mais ao sul. Primeira classe do trem lotada, bom ter feito reserva dos lugares.

Por quatorze euros comprei a Wochenkarte, que dá direito a utilizar os transportes públicos de segunda a domingo. Mesmo sendo hoje quinta-feira, vale a pena: o bilhete para 72 horas custa €13,60. Mais uma vez, hotel na "periferia", mas relativamente perto do metrô, a um preço camarada (€51 pelo quarto de casal): Etap Hotel [atual Ibis Budget Wien Sankt Marx] do grupo Accor, situado numa área perto do gasômetro que, com exceção da construção redonda de tijolos aparentes mais antiga junto à estação do metrô, está cheia de prédios comerciais de design moderno, com largas avenidas ou espaços não-edificados entre eles. Bem diferente da Viena histórica com que estamos familiarizados.

Um pulo ao Centro para uma primeira impressão: Catedral de São Estevão e entorno. Praga é graciosa, aconchegante. Viena é grandiosa, monumental, uma metrópole. Surpreendidos por uma dessas súbitas chuvas europeias. Comemos a autêntica e sesquicentenária Sachertorte no Café Sacher, uma espécie de Colombo vienense. Impressão da Mi: "Viena ganhou o selo do eu volto! Linda cidade."

Naturhistorisches Museum

Viena, 24 de junho

Ao acordarmos o tempo fechado fez com que decidíssemos visitar o Kunsthistorisches Museum (Museu da História da Arte — estação de metrô Museumquartier). Em qualquer cidade, museus são excelentes programas para dias chuvosos, e os museus das grandes capitais europeias são descomunais, você leva horas para ver. Só que o tempo aqui na Europa Central não é como no Brasil, que quando amanhece encoberto fica assim o dia todo, quando amanhece ensolarado idem. No momento em que chegamos no museu o sol já dava o ar de sua graça. Por toda parte a magnificência, a pompa da Era dos Habsburgos se faz notar, sobretudo em torno do Ring, a imponente avenida semicircular que em diferentes trechos assume diferentes nomes (Burgring, Opernring, etc.), aberta no século XIX, apogeu do Império Austro-Húngaro, no local da antiga muralha, derrubada.

Nos dois lados da Maria-Theresien-Platz, com o monumento à Imperatriz Maria Teresa ao centro, erguem-se os monumentais Kunsthistorisches Museum e Naturhistorisches Museum (Museu da História Natural), com altas cúpulas e fachadas neorrenascentistas, construídos entre 1872 e 1881 para abrigar as coleções imperiais. Aliás quase não há prédio na parte mais antiga de Viena que não tenha sua fachada belamente adornada em variados estilos: art noveau (Jugendstil), neorrenascentista, neobarroco, Biedermayer. É um prazer percorrer as ruas e contemplar os prédios, sem falar nas praças bem cuidadas e floridas, nas fontes que, ao contrário das nossas, jorram água (como é lógico que aconteça), etc.

O primeiro piso do Kunsthistorisches Museum abriga as coleções de antiguidades, que deixamos para o final e vimos com rapidez, pois já havíamos tomado um banho de antiguidades em Berlim. Destaque para os sarcófagos e múmias egípcias, os bustos romanos, as estatuetas de deuses greco-romanos. No segundo piso, a pinacoteca de pintores dos séculos XV ao XVIII merece ser vista com toda a calma do mundo. Uma das salas reúne uma magnífica coleção de quadros enormes de Rubens, pintor com uma perfeição técnica atingida por poucos. Outra sala reúne um tesouro de quadros do pintor flamengo Brueghel (um terço de sua obra), inclusive o interessante Kinderspiele (Brincadeiras Infantis, que eu e meus irmãos quando adolescentes chamávamos de Cidade da Bagunça — havia uma reprodução do quadro na nossa sala de jantar), e uma sala de quadros barrocos expostos à maneira pré-século XX cobrindo as quatro paredes de lado a lado e de alto a baixo.

Depois fomos ao parque de diversões Prater (estação de metrô Praterstern), onde existe talvez a roda gigante mais antiga do mundo, de 1897 (na verdade uma reconstrução da roda original, destruída num bombardeio na Segunda Guerra Mundial). Se não tivemos coragem de enfrentar os brinquedos radicais, tipo Playcenter, que fazem você rodar, subir, ficar de cabeça para baixo, despencar, chacoalhar, etc., divertimo-nos pra valer num trem-fantasma (também conhecido como casa-monstro) como aquele que tanto curti na adolescência no parque de diversões armado todos os verões em Teresópolis. Depois seguimos uma estação de metrô adiante (até Vorgartenstrasse) para vermos o Rio Danúbio.

Palácio de Schönbrunn e Fonte de Netuno

Viena, 25 de junho

Tempo bom, ideal para visitar Schönbrunn, palácio barroco ocre-amarelado que serviu de residência a uma sucessão de monarcas austríacos: desde a imperatriz Maria Teresa, mãe de Maria Antonieta, morta na guilhotina, até Carlos I, que em 1918 ali assinou a abdicação, abrindo caminho para a República. De seus mais de 1400 cômodos com decoração rococó 22 podem ser visitados no Imperial Tour (o Grand Tour permite visitar 40 salas, mas 22 são mais que suficientes). Na Grande Galeria, espelhada à maneira do Salão dos Espelhos de Versalhes, o divino Mozart, em sua primeira viagem a Viena aos seis anos, sentou-se no colo da imperatriz e pespegou-lhe um beijo no pescoço.

Vale a pena ficar horas passeando pelos jardins em estilo francês, que cobrem uma área de 1,6 km2. A Fonte de Netuno é monumental. Sobre uma colina ao sul do castelo ergue-se a Gloriette, comemorando a vitória sobre os prussianos em 1757, onde num café comemos deliciosa torta e um chocolate com sorvete e chantili. Aliás as tortas são outra atração da cidade. Assim como em todo canto do Rio a gente depara com um bom botequim, aqui por toda parte encontramos um Cafe Konditorei, um Café Confeitaria, com tortas de dar água na boca. Impressão da Mi: "Comi tantas tortas e salsichas, aqui não tem arroz e feijão mas tem tanta delicinha..."



Como nessa época na Europa só anoitece lá pelas dez da noite, ainda deu para dar um rolê pelo Centro, comer um goulash e ouvir um concerto de órgão (sonífero de barriga cheia) na Karlskirsche.

Estátua de Mozart

Viena, 26 de junho

Último dia em Viena. O dia amanheceu bem encoberto mas aos poucos foi melhorando. Fizemos um enorme passeio por toda a cidade, combinando metrô, bonde e longos percursos a pé. Vimos o Stadtpark, com as estátuas de Schubert e Strauss (a original, em restauração, substituída por uma estátua "dublê"); Beethovenplatz, praça onde se ergue o monumento ao grande Beethoven; Belvedere, conjunto de dois palácios barrocos (Belvedere Superior e Inferior) e um jardim barroco do início do século XVIII; a Karlsplatz, onde fica a Karlskirche, igreja que mescla elementos clássicos e barrocos; Secession, primeiro prédio art nouveau da cidade; Hundertwasserhaus, um conjunto residencial moderno (1985) com uma concepção arquitetônica inusitada; a impressionante Prefeitura (Rathaus) em estilo neogótico; o monumental Parlamento em forma de templo grego; e o descomunal (haja adjetivos!) Hofburg, conjunto de palácios imperiais cuja construção começou no século XIII e que foram sendo ampliados até a queda da monarquia. E ainda deu para ver a estátua de Mozart no Burggarten anexo ao Hofburg e a casa onde Mozart morou de 1784 a 1787 pertinho da Catedral de São Estêvão.

Delícias austríacas

27 de junho

A viagem de trem de Viena a Munique ao som de Mozart (no meu MP3), sob um céu enfim sem nuvens, passando por bosques e vilarejos e riachos e igrejinhas rurais de contos de fadas sem nenhum sinal de miséria, em países onde a classe média constitui a maioria da população, faz surgir a pergunta: por que alguns países (depois de séculos de guerras e atrocidades) enfim chegaram lá enquanto outros...? (Responda se for capaz!)

Hofbräuhaus

Munique, 28 de junho

Primeiro dia em Munique hospedados na casa da Tita. De manhã ela nos deixou nas proximidades do Englischer Garten, o enorme parque em estilo inglês onde os muniquenses vão pegar sol, praticar jogging, levar os bebês para passear ou beber cerveja no Biergarten da Torre Chinesa. Os Biergarten (literalmente, jardins de cerveja) são cervejarias ao ar livre, sob as árvores, onde os alemães vêm passar momentos agradáveis nos poucos meses de trégua do frio. Enquanto consultávamos o mapa a caminho do parque uma ciclista (usa-se muito a bicicleta aqui, e em quase todas as vias existem pistas para bicicletas) parou e gentilmente perguntou se precisávamos de ajuda. Nosso primeiro contato com a gentileza muniquense. Também mais tarde na Marienplatz uma senhora já com certa idade nos abordou e exclamou em alemão (fazia um sol carioca, dando uma luminosidade especial à cidade): vejam como a cidade é bonita, o prédio da Prefeitura... E perguntou de onde vínhamos. No final do dia a caminho do Hofbräuhaus um senhor amalucado com um boné do Brasil, em meio a gargalhadas, falou mil e uma abobrinhas. Mas estou me adiantando.

Percorremos Munique de cabo a rabo (tudo a pé), vendo igrejas, parques, fontes, construções interessantes, Residenz, o carrilhão ao meio-dia na Prefeitura, o Virktualienmarkt (mercado de comestíveis), Fonte de Netuno, Frauenkirche (a Catedral de Nossa Senhora, interessante combinação de gótico tardio com cúpula renascentista), Königsplatz com suas construções em forma de templos gregos, etc.

Os problemas, onde estão os problemas? Se você ler os jornais ou conversar com alguém, ouvirá falar dos problemas: grupos radicais, o velho antissemitismo, impostos dos alemães financiando a bandalheira fiscal dos países periféricos da zona do euro, sei lá o quê. Mas percorrendo a cidade você não vê nenhuma mazela, nenhum sinal de miséria.

Encerramos com chave-de-ouro no Hofbräuhaus, a tradicional cervejaria (onde Hitler tramou o golpe fracassado de 1923) quadricentenária, com seus canecões de chope de um litro e pratos alemães típicos tipo salsicha, Sauerkraut (chucrute) e salada de batatas.

Salzburg

Salzburg, 29 de junho

Aproveitamos um dia do nosso passe de trem para visitar Salzburg. Como bons andarilhos, fomos a pé da estação ferroviária até a Altstadt (a Cidade Histórica) e depois de volta, mas na ida talvez devêssemos ter poupado energia pegando o ônibus na frente da estação ferroviária até o Centro. Na volta, aí sim, é gostoso vir a pé devagarinho ao longo da margem do rio, atravessar a ponte em frente ao Mirabellgarten (Jardim Mirabell), contemplar os jardins floridos em estilo geométrico francês e depois subir a Reinerstraβe até a estação (veja no Google Maps, imprima e leve na viagem). Sol digno do Rio de Janeiro, boné e/ou óculos de sol e protetor solar são acessórios fundamentais, bermuda cairia bem mas a gente quando vem à Europa acha que não vai precisar.

Na Europa a gente vê palácios, castelos, igrejas de épocas remotas, mas em Salzburg impressiona o número de prédios residenciais construídos antes que o Brasil sequer tivesse sido "descoberto".

Uma das maiores atrações da cidade é a Festung Hohensalzburg, fortaleza encarapitada no alto de uma rocha, que, com suas muralhas a prumo e vários portões fortificados, antes da invenção das armas de fogo era inexpugnável. Tanto que, numa revolta camponesa do princípio do século XV, o príncipe-arcebispo ali se refugiou e permaneceu incólume até a chegada, semanas depois, de reforços de mercenários.



Num agradável Biergarten na encosta do morro do castelo provamos enfim um Wiener Schnitzel decente — aquele do Prater em Viena tinha mais milanesa do que bife. Na casa onde nasceu Mozart vale a pena recordar (ou aprender) os eventos de sua biografia, ver quadros do músico e de sua família, objetos pessoais como seu violino de infância, etc.
Assim foi nosso dia em Salzburg.

Schloss Neuschwanstein

Munique, 30 de junho

Observação no trem a caminho do Castelo de Neuschwanstein: os chineses invadiram a Europa. Nos anos 70 eram os americanos e nos 80, os japoneses, lembro bem. Os chineses se orientam por aqui como se estivessem em casa. Será que nós lá na China nos orientaríamos igualmente bem? Fim da observação.

Passeio a Neuschwanstein, o castelo em meio às montanhas escarpadas e florestas de pinheiros que o Rei Ludwig II da Baviera mandou construir para só desfrutar dele por poucos dias: tendo sido diagnosticado mentalmente incapaz por uma junta de psiquiatras, ele e o psiquiatra que o acompanhava foram achados mortos, flutuando no Lago Starnberg, em condições misteriosas. A decoração suntuosa do castelo (cujo segundo andar ficou inacabado) evoca lendas germânicas medievais que foram temas de óperas de Wagner, de quem o rei foi admirador e patrocinador.

Como chegar: de Munique pega-se um trem até a cidade de Füssen, no extremo sul do país. Os trens saem de hora em hora (alguns horários: 8:52, 9:51, 10:51). Alguns vão direto a Füssen (por exemplo, os de 8:52 e 10:51), em outros é preciso baldear em Buchloe. A forma mais econômica é comprar o Bayern Ticket, válido por um dia para viagens ferroviárias na Baviera. Em frente à estação de trem de Füssen um ônibus conduz a Hohenschwangau, local do Ticket Center para compra de ingressos para o castelo. Do Ticket Center anda-se uns 30 minutos pela floresta até o castelo no alto de um penhasco. É só seguir a horda de turistas que não tem erro.

München: Max-Joseph Platz

Munique, 1o de julho

De manhã abriu o maior sol. Escaldados pelo calor dos dois primeiros dias aqui, dispensamos casaco e guarda-chuva. Erro fatal. O tempo de repente mudou, e a chuva e frio acabaram fazendo com que eu, o maior anticonsumista da face da Terra, que sempre achei que turista deve se concentrar nas atrações locais sem perder tempo com compras, acabasse adorando entrar nas lojas (quentinhas). Comprei o presente do meu filho (uma camisa oficial do Bayern de Munique) e os temperos que sempre gosto de trazer quando porventura venho parar na Alemanha: Meerrettich (raiz-forte), Senf (mostarda), Dill (endro), excelente tempero para saladas de batata, e Kümel (cominho em grãos). O tempo inclemente também fez com que passássemos um bom tempo saboreando o melhor Apfelstrudel da face da Terra, acompanhado de uma montanha de Sahne (creme de chantili) e, em seguida, uma Erdbeeren Zabaione, espécie de fatia de bolo de casamento de morango, na Rischart, confeitaria com várias filiais em Munique que recomendo para quem aqui vier. Na saída de um supermercado um bando de brasileiros também tiritava de frio — caíram na mesma armadilha que nós de achar que o sol de manhã significava sol o dia inteiro. No fim da tarde o sol voltou — tarde demais! À noite jantar de família num restaurante italiano.

Trens de alta velocidade na estação de Frankfurt

2 de julho

Viagem de ICE — Intercity Express, trem de alta velocidade, o tal de trem-bala que há décadas prometem implantar entre Rio e Sampa — de Munique a Frankfurt. Mais de quinhentos quilômetros em 3 horas e 14 minutos. Na viagem à Europa vivemos o “aqui e agora” preconizado pelos místicos orientais. A rotina pré e pós-viagem se perde nas brumas. O dia é vivido plenamente do momento em que se acorda ao momento em que se cai "morto" na cama.

Trem partiu rigorosamente no horário, como é de praxe por aqui, mas devido a problemas técnicos, chegou em Frankfurt com meia hora de atraso. Em Frankfurt fomos pelo S-Bahn (o trem suburbano) até Kronberg, onde minha tia Helga, irmã de minha prematuramente falecida mamãe, reside há década e meia num Seniorenheim, um lar de idosos confortável, depois de ter passado grande parte da vida no Brasil.

Frankfurt: Margem do Rio Meno (Main)

3 de julho

No final da manhã tínhamos um encontro marcado (pela titia) com uma arquivista do Museu Judaico de Frankfurt, que nos mostrou o museu em geral e uma antiga árvore genealógica de prata que, por grande parte de minha vida, eu via no apartamento de minha vovó e que minha tia doou ao museu. Demos uma volta pelo centro histórico, percorremos a orla do Rio Meno, que no domingo funciona como área de lazer, atravessamos o rio numa ponte antiga em cuja grade casais apaixonados prendem cadeados com seus nomes gravados e depois jogam a chave no rio para que seu amor dure para sempre, do lado de lá do rio pegamos o metrô de volta à estação de trem, de onde retornamos a Kronberg.

O centro de Frankfurt, hoje não muito cheio por ser domingo, lembra um pouco o Centro de Sampa com sua variedade humana, sujeira nada europeia, pedintes e grupos de mendigos.

Catedral de Colônia

4 de julho

Madrugamos para cumprir um roteiro puxado. Primeiro uma peregrinação a Colônia, obra monumental que tanto nos impressionou quatro anos atrás. Inacreditável o tempo que levou para ser construída: de 1248 a 1880 — obra de igreja! Impressiona também o postal que vimos de Köln ao final da guerra, toda bombardeada, apenas com a catedral incólume — como meu falecido parente Ludwig contou que viu ao passar por lá de trem depois de libertado de Auschwitz.

O lógico seria prosseguirmos de Colônia para Paris, mas aí o trem passaria pela Bélgica, país não incluído no nosso Rail Pass, e teríamos de pagar um acréscimo salgado. Por isso, de Köln voltamos a Frankfurt para de lá viajarmos a Paris. Adeus idioma alemão, que luto por toda a vida para dominar. Que venham os franceses!

PARTE 2: PARIS

"Paris é o teto do gênero humano. Toda essa prodigiosa cidade é um resumo dos costumes mortos e dos costumes vivos. Quem vê Paris julga contemplar o reverso de toda a história, com o céu e todas as constelações. [...]

Procurem alguma coisa que Paris não tenha. [...]

Paris é sinônimo de Cosmos. Paris é Atenas, Roma, Sibarias, Jerusalém, Pantin. Todas as civilizações, com todas as barbarias, aí estão representadas. Paris envergonhar-se-ia de não possuir uma guilhotina."

Victor Hugo, Os miseráveis, Parte III, X




Jardim das Tulherias: "No mundo só há de verdadeiramente interessante Paris, e todo o resto é paisagem." Eça de Queiroz

Paris, 5 de julho de 2011

Primeiro dia em Paris. Percorremos um longo trecho a pé, uma dessas minhas caminhadas radicais que também no Rio gosto de fazer, do nosso hotel perto da Place de la Nation até o Arco do Triunfo, para uma primeira impressão da cidade. Planejei antes no mapa de Paris que deram no hotel. Entre os lugares por onde passamos: Place de Vosges, encantadora praça antiga com prédios renascentistas e arcadas; Notre Dame (com exércitos de turistas fazendo fila para entrar e/ou subir à torre); Museu do Louvre (só por fora — pura monumentalidade); Jardim das Tulherias; Obelisco (de 3200 anos, vindo de Luxor); Champs Elisées lotada de gente. Calor de 31 graus daqueles que a gente acha que não faz na Europa — em julho não venha para cá sem bermuda.

À noite, orgia gastronômica num bistrô próximo ao hotel, que vive lotado (bar, resto, cave à vins Pozada — 2 Rue Guénot). Oh, os temperos, os molhos e vinhos franceses... Impressão da Mi: "Que tempero! Os vinhos são perfumados: quando o cara veio nos trazer de repente senti um cheiro como se fosse perfume!"

Subindo Montmartre

Paris, 6 de julho

Segundo dia em Paris. O tempo refrescou. Como definir Paris? Cada cidade, como cada pessoa, tem sua história, sua personalidade própria. Cidade Luz, o clichê. Vejamos o outro lado da moeda.

O trem (francês) em Frankfurt com destino a Paris saiu com alguns minutos de atraso, algo com que havíamos nos desabituado nas andanças pelos países da Europa Central. No velho coreto da Place de la Nation (próxima do nosso hotel), colchões e cobertores, supostamente de mendigos. Numa cabine de telefone público, cheiro de xixi. Camelôs vendem água mineral e lembrancinhas nos lugares turísticos e de repente saem correndo, fugindo do rapa. Grupos de "romenas" (uma brasileira que trabalha na loja de suvenires do zoológico de Berlim já havia falado sobre essa invasão de romenos e suas táticas para roubar os incautos) ficam de tocaia numa passagem estreita com grande fluxo de turistas. Antes já havíamos visto algumas correndo, e alguém chamando um policial. Um motorista impaciente avança sobre a faixa de pedestres no sinal vermelho, e uma pessoa protesta. Aliás os carros relutam em parar na faixa de pedestres (mas param). Vespas que estacionam em calçadas disparam pelos pedestres como se estivessem em plena rua.

Escrevo isto tudo não para depreciar Paris, cidade charmosa, fotogênica, vibrante, luminosa, esplendorosa, pela qual nos apaixonamos, mas para calar aqueles brasileiros que só vêm defeitos no nosso país e acham que, fora de nossas fronteiras, tudo é perfeito. Afora a eficiente Alemanha (eficiente para o bem e para o mal) e uma meia dúzia de outros países "perfeitos", o mundo é mais ou menos como o nosso Brasil.

Visitamos o charmoso bairro de Montmartre, numa colina em cujo alto se ergue a igreja (em estilo romano-bizantino) de Sacré-Coeur, construída entre 1875 e 1914 em ação de graças por Paris ter sido poupada de um temido massacre durante a Guerra Franco-Prussiana. Sim, no passado, franceses e alemães, culturalmente tão diferentes até hoje, viviam às turras.

Seguindo a dica de um site sobre Paris (Paris Inconnu - Paris Insolite), saltamos na estação de metrô Lamarck-Caulaincourt, e fomos subindo a encantadora colina (livres de turistas) passando por ruas de paralelepípedos, escadarias (como as que sobem alguns morros cariocas), charmosos prédios de apartamentos de poucos andares com flores nas janelas e grades de ferro forjado nas sacadas como vemos também no Rio Antigo. Até que, de repente, eis que o bucolismo se desfaz e deparamos com os bandos de turistas que invadem as atrações de Paris. A outrora sossegada (segundo minhas lembranças de viagens anteriores) Place du Tertre foi invadida por bistrôs ao ar livre e artistas de rua, virando uma Feira Hippie.

Descemos a colina pelo jardim em declive em frente da Igreja. Ao pé da colina sobrevive um carrossel veneziano do século XVIII. Só não sei como era acionado nos tempos pré-eletricidade.

Impressão da Mi: "Paris é muito grande, os metrôs são supergrandes quase sem escada-rolante, ou sem escada, depende da estação. Há muitos negros aqui e tipo turcos, tudo é meio bagunçado, há colchões nas calçadas, lixo, miniesgotos, tem pichações, é uma puta de uma cidade grande. Adoro!"



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Embrenhamo-nos por um pitoresco mercado de tecidos, expostos em frente às lojas como na SAARA carioca ou na 25 de Março paulista. Ao brincarmos de “nos perder em Paris” (você pode brincar de se perder pelas ruas parisienses e, depois de algum tempo, descobrir no mapa onde está e procurar o metrô mais próximo — sempre tem um metrô próximo), de repente foi como se tivéssemos sido transportados para Lagos ou Luanda. Se no Brasil os negros foram "aculturados" por séculos de escravidão, aqui as raízes africanas são mais visíveis. Sentimo-nos como, digamos, no Centro paulistano em meio a todo aquele movimento humano, sujeira nas calçadas, ambulantes tentando impingir suas mercadorias. Os parisienses, onde estão os parisienses típicos como que saídos de um filme de Truffaut? Até agora o que mais vimos foram levas de turistas e gente de todas as cores e raças — melting pot.

À noite, para reduzir o gasto médio com refeições (o bistrô de ontem saiu por uns 45 euros, mas valeu a pena), compramos no Carrefour do Boulevard Rochechouard, perto da estação de metrô Pigalle, sanduíches, salada de macarrão com siri e alface, croutons, e na Epi perto do hotel uma Cherry Coke e uma Guiness (confesso que nossa Caracu é mais saborosa), e fizemos um jantarzinho romântico, a um precinho camarada, na mesinha de nosso hotel low budget.

Tour Eiffel vista do Arco do Triunfo

Paris, 7 de julho

Terceiro dia em Paris. O metrô de Paris é um espetáculo à parte. Mais que centenário, sua rede, com mais de 200 quilômetros de extensão, cobre todas as áreas da cidade. Onde quer que você esteja, consegue ir a praticamente qualquer outro lugar usando o metrô.

Na hora do rush lota e você tem que tomar cuidado para que não batam sua carteira (suponho). Artistas de rua tocam seus instrumentos — acordeon, violino, trombone... — e/ou cantam em troca de uns trocados. A variedade humana é incrível: africanos, indianos, orientais, islâmicos, caucasianos. O metrô é antigo, os vagões são estreitos, os passageiros se acotovelam. Para baldear de uma linha para outra numa estação você passa às vezes por um emaranhado de túneis e subidas e descidas de escadas (são poucas as escadas rolantes no metrô de Paris). Tudo lotado como num formigueiro. Na ida muitos passageiros leem livros, jornais, ou manuseiam aparelhos eletrônicos. Na volta vêm cansados do trabalho.

Junto com os famosos esgotos de Paris, onde decorre uma das passagens mais eletrizantes de Os Miseráveis, os túneis do metrô (não só da via férrea mas também de acesso e de ligação entre as linhas) formam um labirinto subterrâneo como que cavado por toupeiras gigantes.

A passagem individual custa €1,70 mas por €12,50 você compra um carnet de 10 tickets (é este o nome em francês; dá pra comprar na maquininha, mas você precisa ter moedas).

Começamos nosso périplo parisiense pelo monumental (tudo em Paris é monumental) Arco do Triunfo (estação de metrô Charles de Gaulle-Étoile), que deixa o Portão de Brandemburgo no chinelo! Embora sua construção se iniciasse em 1806 por iniciativa de Napoleão para celebrar seus feitos bélicos (“Vocês voltarão sob arcos triunfais”, prometeu aos seus soldados), só ficou pronto em 1836 no reinado de Luís Filipe. Paga-se €9,50 para subir uma escada em caracol de quase 400 degraus e descortinar a vista deslumbrante a 50 metros de altura.

Finalmente atravessamos o Sena pela ponte mais bonita de Paris: a Ponte Alexandre III, decorada com lampiões, querubins, leões gigantescos, ninfas e cavalos alados, e na margem esquerda fomos nos aproximando da Tour Eiffel, que enfim surgiu entre dois renques de prédios. Obra ímpar da engenharia, com estrutura complexa de ferro fundido, erguida em 1889 e jamais igualada.

Impressionantes os amplos espaços não edificados abertos por ocasião da modernização do Barão Haussmann (o Pereira Passos parisiense) na era napoleônica, as avenidas larguíssimas, de mão dupla, os jardins, os passeios à margem do Sena, as praças circulares aonde convergem montes de avenidas (doze na Étoile), o anel de bulevares circundando a cidade.

Versalhes ao entardecer

Paris, 8 de julho

Comprar camembert por um euro não tem preço! Dez centavos mais caro que a baguete, de 90 centavos (que em francês são quatre-vingt-dix, quatro vinte e dez), crocante como nenhuma no Brasil. Com um suquinho de laranja em lata e um café solúvel improvisado com água da torneira do banheiro (cafeinômano como eu não sai em viagem sem carregar o vidrinho de Nescafé), constituiu nosso desjejum no quarto do hotel antes de sairmos para o nosso passeio ao... tchan, tchan, tchan, tchan... Palácio de Versalhes!

O ingresso a 18 euros por cabeça comprei pela Internet e imprimi antes de partir em viagem. Existem duas maneiras de chegar ao Palácio: pegar o ônibus 171 em Port de Sèvres ou pegar um trem suburbano (reseau Ile-de-France) na Gare de Austerlitz até lá. Optamos por esta última, que nos pareceu mais barata (eu disse pareceu, na verdade não sei o preço do ônibus).

Chegamos no Palácio vinte para meio-dia, entramos numa fila enorme mas que avançou rapidamente. Na Alemanha e Áustria organizadas não há fila: quando você compra o bilhete, agendam uma hora de entrada, geralmente duas horas depois, e aí você fica zanzando até chegar sua hora.

Versalhes foi o maior palácio da Europa e o mais esplendoroso. Passeio para um dia inteiro, incluindo os vastos jardins geométricos com gramados, fontes, árvores e arbustos podados como só os franceses sabem fazer (a Praça Paris carioca dá uma tênue ideia) e flores multicoloridas. Impressionante o luxo dos aposentos dos nobres e, em especial, do rei e da rainha, com seus lustres, afrescos, esculturas, relógios, espelhos, mármores. O Salão dos Espelhos (cartão postal abaixo), onde se assinou o Tratado de Versalhes, deve ser o mais grandioso do mundo. Tanto luxo acabou custando caro — custou a cabeça dos monarcas.



Vimos também o Grand Trianon e o Petit Trianon, do qual o prédio antigo da Academia Brasileira de Letras é uma réplica. Impressão da Mi: "Lá é lindo. Tudo perfeitamente perfeito! Todos os detalhes! A decoração, as poltronas, o teto todo pintado! O salão dos espelhos. Saindo do palácio a gente foi no jardim que tem flores lindas roxas, azuis, flores diferentes com abelhas gordas!"

Na volta demos uma passada pela tradicional casa de cancan Moulin Rouge. A entrada para o show custa em torno de 100 euros, não é programa para nós. No Carrefour lá perto voltamos a comprar saladas e iogurtes para comer no hotel. Como ontem. Só assim conseguimos nos recuperar do bombardeio de salsichas alemãs!

Tour Eiffel

Paris, 9 de julho

Na tentativa de encontrar o jardim de rosas do Parque de Bagatelle, nos perdemos nos meandros do Bois de Boulogne, um bosque imenso, remanescente da mata nativa da região, cortado por avenidas de alta velocidade, com alamedas um tanto ermas mesmo no sábado, algumas prostitutas se oferecendo em plena luz do dia (imagine à noite), um ou outro parisiense praticando jogging ou ciclismo. As distâncias são enormes, a sinalização, deficiente, o bosque é aprazível e o jardim de rosas não conseguimos achar. No dia seguinte descobrimos que deveríamos ter saltado na estação de metrô Porte Maillot e prosseguido no ônibus 244. Mas valeu a aventura!

Depois o tradicional passeio pelo Sena nos Bateaux Mouches, que partem de um cais na altura da Pont D’Alma (estação de metrô Alma-Marceau). O preço estava dentro das expectativas (€11) e em dias sem chuva (como hoje) você pode se sentar no terraço descoberto. O ideal é curtir o passeio em si sem prestar muita atenção às explicações pelo alto-falante. São em tantas línguas que quando começam na primeira (francês) a atração descrita ainda está longe e quando terminam na última língua (chinês, um tal de chon, chung, chang) a atração já passou. Além disso, em vez de dizerem right (direita), left (esquerda) utilizam os termos starboard (estibordo), port (bombordo), e como você não é marujo não sabe para onde olhar, e se sente o maior idiota da face da Terra porque todos os outros a bordo olham para o lado certo. Passeio agradabilíssimo, passando sob as diversas pontes que atravessam o Sena: uma delas construída com as pedras da demolição da Bastilha, outra em estrutura de ferro com “cadeados do amor” presos (como aqueles que descrevi ao falar de Frankfurt), a Pont Neuf (Ponte Nova), contraditoriamente a mais antiga de Paris, etc.



Por último, o colosso da engenharia do século XIX, a torre de mais de 300 metros constituída de um emaranhado de ferro que, até erguerem o Empire States Building, foi a construção mais alta da face da Terra. Você já sabe de que estou falando: da Tour Eiffel! A Torre possui três plataformas aonde se pode subir: o terceiro andar, a quase 300 metros (só para comparar, nosso Pão de Açúcar tem 395 metros), acessível por elevador, onde jamais tive e jamais terei coragem de subir (vertigem!); o segundo andar, a 115 metros de altura, e o andar mais baixinho, a 57 metros (sete metros mais que o Arco do Triunfo), acessíveis por uma escada de 704 degraus e também pelo elevador.

Na base da torre, filas imensas, como aliás em todas as grandes atrações turísticas de Paris nesta época de alta temporada. Optamos pela escada ao preço módico de €4,90 por pessoa. Embutida na estrutura de um dos pés da torre (são duas escadas, uma para subir, outra para descer) e cercada por uma grade alta, permite uma subida tranquila, mesmo para quem tem aversão às alturas.

Da primeira plataforma se tem uma vista deslumbrante de Paris (imagine da última). De lá mais 359 degraus levam ao segundo andar, mas aí a vertigem falou mais alto, e no meio do caminho desistimos. Quem sabe da próxima vez tomo uns gorós e tento de novo?

Gustave Moreau, Le poète voyageur - O poeta viajante (cartão postal)

Paris, 10 de julho

De manhã fomos à casa-museu do pintor simbolista Gustave-Moureau. No primeiro andar, os aposentos conservam a mobília e decoração do tempo do pintor. No ateliê no segundo e terceiro pavimentos, uma profusão de obras de Moureau cobre as paredes. Os simbolistas privilegiavam a imaginação, ao contrário dos impressionistas que privilegiavam a percepção. Impressão da Mi: "Gostei muito de alguns quadros dele porque fogem do que todo mundo faz!"

De lá fomos andando a pé, calmamente, até o Musée d’Orsay, passando por marcos parisienses como a suntuosa ópera (na qual dizem que nosso Municipal se inspirou) e a colossal Madeleine, com suas enormes colunas coríntias.

Em frente ao Musée d’Orsay, a habitual fila, onde ficamos uns 45 minutos. Entramos no museu às três da tarde, e ele fecharia às seis — em menos tempo não daria para ver esse belíssimo museu que ocupa uma antiga estação de trem. Dedicado à arte (predominantemente francesa) do século XIX, reúne, além de todas aquelas obras clássicas do impressionismo — algumas das quais nos parecem familiares de tanto que foram reproduzidas em fascículos de arte, livros etc. —, telas de pintores de outras escolas menos badaladas (mas igualmente bons, se não melhores) como os simbolistas, naturalistas, românticos, neogregos, realistas, bem como esculturas e requintados objetos de arte decorativa (mobília, porcelanas, ambientes etc.) com toda uma seção dedicada ao art nouveau.

À noite, uns crepes com vinho num restaurante turístico perto do Louvre saíram um pouco caros demais. Cuidado com os restaurantes turísticos.

Île St-Louis

Paris, 11 de julho

Segunda-feira, dia de sentar ao computador e recomeçar a faina, mas por um raro período da vida estou livre dessa rotina (da qual, por alguns raros momentos, sinto falta).

Começamos o dia com nosso café da manhã habitual aqui em Paris: compramos croissants na boulangerie (deux croissants ordinaires, comuns, et deux croissants au beurre, amanteigados) e fomos comer no McCafé acompanhados de um grand café e um chocolat.

Escolhi na seção “Oito Passeios A Pé” do Guia Visual de Paris um passeio de noventa minutos por Buttes-Chaumont (pág. 268 do guia). O passeio começou por uma encantadora vilazinha de cinco ruelas, casas simpáticas e um jardinzinho com vista para Montmartre. Enfim conseguimos curtir uma Paris livre das hordas de turistas (também no Rio gosto de passear por esses lugares onde “ninguém vai” tipo Morro do Pinto). Tropeçamos em alguns erros de tradução do Guia, como “uma casa coberta de marfim” que na verdade estava coberta de trepadeiras e “degraus forrados de hera” que na verdade estavam ladeados por hera. O passeio prossegue pelo Parc des Buttes Chaumont, um bucólico parque em estilo inglês do tempo de Napoleão III com laguinho, cascata e, no alto de um penhasco, uma cópia do templo de Sibila romano, com uma bela vista. Aqui o Guia Ilustrado se torna confuso (a “pequena ponte azulejada” simplesmente é inincontrável), e a certa altura tivemos de abandoná-lo e contar com nosso senso de direção.

Em seguida mais um passeio a pé do Guia Ilustrado, pela tranquila Île St-Louis (pág. 262), ilhota que, embora colada na badalada Île de la Cité, atrai bem menos turistas. Morar num lugar chique assim não é para qualquer um: um studio de 21m2 está à venda por 430 mil euros. Desta vez conseguimos completar o percurso do guia sem esbarrar em erros de tradução e sem nos perdermos.

Já que estávamos ao lado da Île de la Cité, em seguida atravessamos a Pont St. Louis e nos juntamos à multidão de turistas que visitavam a Catedral de Notre Dame. Menor, menos imponente que a Catedral de Colônia. Ainda assim, impressionam a abóbada da nave central pairando nas alturas (prodígio da engenharia medieval), as rosáceas norte e sul, os entalhes em madeira dos bancos do coro, as pinturas religiosas nas capelas laterais, os vitrais que devem ter sido a maior maravilha do mundo aos olhos dos medievais.

Ao final da tarde uma decepção: a tradicional loja de departamentos Samaritaine (quem esteve em Paris nos anos 70, 80 conheceu) fechou as portas. Seu gigantesco prédio está em obras para abrigar, em 2013 ou 2014, um complexo com centro de convenções, hotel, centro comercial etc.

Mais tarde, ao chegarmos na plataforma do metrô da estação Châtelet, um tumulto: uma japonesa chorando, três policiais revistando duas "romenas", um popular indignado bradando que deveriam prendê-las. Perguntei-lhe (no meu francês macarrônico) o que aconteceu, e ele me contou que umas pickpockets (usou o termo inglês com pronúncia afrancesada) bateram a carteira da japonesa. Indaguei se as ladras eram francesas ou estrangeiras (les vouleurs sont françaises ou étrangers?), ele respondeu que eram romenas e agem habitualmente naquela estação. É preciso abrir o olho!

O verdadeiro labirinto não ficava em Creta, fica nos subterrâneos de Paris. Numa das estações de metrô (République) cinco linhas se encontram, interligadas por um sistema de passagens, escadas etc. Se um dia por um estranho motivo desaparecesse toda a sinalização visual, estaria instaurado o labirinto, onde todos se perderiam.

Tabuleta do antigo cabaré Le Chat Noir (O Gato Preto) no Musée Carnavalet

Paris, 12 de julho

Paris é surpreendente. A gente está andando depois de visitar um museu e de repente depara com uma área de baixo meretrício, prédios que parecem cortiços (com roupas penduradas na janela), um hotel barato provavelmente para encontros furtivos, um grupo catando sapatos jogados fora, lojas de roupas baratas e grupos de chinesas que parecem estar saindo de alguma confecção onde trabalham, mais adiante prostitutas chinesas. Que contraste com os chineses endinheirados que vemos nas lojas ultrassofisticadas dos Champs-Elysées. E pensar que tantas vidas se perderam na tentativa fracassada de implantar a sociedade sem classes na China. Mais à frente, uma rua que, pelas placas dos estabelecimentos e tipos humanos, concluímos ser um bairro turco. Tudo isso vimos no entorno da Porte St-Denis quando voltávamos do Museu Carnavalet.

O Museu Carnavalet é um achado. Gratuito, algo raro por aqui. Ocupa dois hôtels, que são antigas mansões (o hotel de hospedagem costuma ser escrito sem o circunflexo): Hôtel Carnavalet e o vizinho Hôtel Le Peletier, ligados por uma passagem. Possui um jardim pequeno mas que é um mimo.

O museu conta a história de Paris através de antigos letreiros, um tesouro de pinturas (numa delas, retratando um antigo restaurante, aparece o nosso Santos Dumont) incluindo a coleção de quadros acadêmicos doada ao museu pela viúva do marchand François-Gerard Seligmann, objetos decorativos e reconstituições de ambientes, como o quarto de Proust, um salão de baile, uma joalheria art nouveau. A seção no segundo andar sobre a Revolução Francesa é fascinante. Os quadros mostrando o rei e a rainha prisioneiros dos revolucionários, o rei se despedindo da família para enfrentar a guilhotina, a rainha viúva e seu posterior guilhotinamento são comoventes. O cerco de Paris pelos prussianos e a Comuna de Paris também estão lá. Quanta história!

De manhã (quando choveu) visitamos lojas. Vale a pena ver a cúpula de vitral e adornos exuberantes da Galerie Lafayette Coupole (estação de metrô Chaussée d’Antin La Fayette).

Sainte Chapelle

Paris, 13 de julho

Em pleno verão um frio de inverno paulistano (mas no final da tarde o tempo abriu). Na próxima viagem, trazer um computadorzinho de bordo (pode ser um Netbook) a fim de consultar a previsão do tempo e não correr mais o risco de sair encasacado e morrer de calor, ou vice-versa. Poder consultar dicionários eletrônicos também seria de grande valia.

Primeira parada, Sainte-Chapelle, na Île de la Cité (estação de metrô Cité), joia da arquitetura e arte medieval, construída por São Luís (o rei Luís IX) para abrigar as relíquias da Paixão de Cristo, entre elas um fragmento da Cruz e a Coroa de Espinhos. A maioria foi destruída na Revolução e as relíquias sobreviventes são mantidas na Catedral de Notre Dame. As quinze janelas de vitrais, de intensa beleza, retratam 1113 cenas bíblicas, e a rosácea ilustra o Apocalipse de João. Impressão da Mi: "Praticamente uma mini-igreja gótica quase toda feita de vitrais. É inexplicável, parece uma caixinha de joias muito caprichada."

Os turistas fotografam tudo compulsivamente — milhões de fotos praticamente idênticas, a redundância levada ao paroxismo. Mas o sublime não é captável pela câmera fotográfica.

Por 11 euros compra-se um ingresso válido para a Sainte-Chapelle e a Conciergerie ao lado (os dois ingressos separados custam mais caro). Criada originalmente como palácio real dos primeiros reis capetianos, a Conciergerie mais tarde serviu como Palácio de Justiça e prisão. Após um incêndio em 1776, Luís XVI modernizou a prisão que, por ironia do destino, acabou servindo de Tribunal Revolucionário. A própria Maria Antonieta foi ali julgada e encarcerada antes de ser guilhotinada. Transformada em museu, funciona também como memorial às vítimas do Terror, cujos nomes são listados numa das salas. Uma capela no local da antiga cela de Maria Antonieta reverencia a memória da rainha.

Depois disso pretendíamos ir ao Louvre, que na quarta-feira permanece aberto até 22 horas, mas a longa fila sob a chuva e vento gelado fez com que desistíssemos e o trocássemos pelo Musée Jacquemart André (158, Blvd Haussman — estação de metrô Miromesnie). Sorte nossa. Dia seguinte foi 14 de julho, quando o Louvre não cobra entrada. Uma maneira de evitar a fila do Louvre é comprar o ingresso com antecedência na FNAC da Champs Elysées, mas não sabíamos.

Ocupando uma esplêndida mansão com jardim de inverno, sala de música, fumoir, boudoir, biblioteca etc. belamente adornada com afrescos, tapeçarias, jarros, porcelanas, mobílias de época etc., o Museu Jacquemart André oferece a rara oportunidade de contemplar calmamente obras-primas da pintura clássica francesa, renascentista italiana (Botticelli, Canaletto, Uccello...), holandesa (Rembrandt, Van Dyck...) e inglesa (no fumoir) sem atropelo, sem os bandos de turistas dos museus mais badalados.

Louvre visto da Pont du Carroussel

Paris, 14 de julho

Passar o 14 de Julho (dia da Tomada da Bastilha) em Paris é uma experiência ímpar. Às nove da manhã, quando o Louvre abre as portas, já estávamos na fila, pois hoje a entrada é gratuita (normalmente custa €10). O Louvre é um mundo. Ficamos lá dentro quase sete horas e não vimos nem metade. São três alas — Richelieu, Denon e Sully — multiplicadas por quatro pavimentos: 2e étage, 1er étage, rez-de-chaussée (rés do chão, mais conhecido por térreo) e entresol (subsolo). Subimos direto ao pavimento superior calculando que as outras pessoas começariam a visita pelos andares mais baixos, e assim conseguimos apreciar as coleções de pinturas francesas do século XVIII (ala Sully) e norte-europeias na ala Richelieu com tranquilidade.

Depois tivemos que fazer uma mudança de ala (as alas Richelieu + Sully e a ala Denon possuem entradas independentes) para ver o restante dos quadros: um acervo impressionante de pinturas italianas, um bom acervo de pinturas espanholas e uma única sala de obras inglesas. Aqui o sossego acabou. Esbarramos com as multidões de turistas que vêm atrás do grande ícone cult do museu: o pequeno quadro da Gioconda (Mona Lisa), cercado por uma barreira humana como se fosse um objeto de veneração. Não dá nem para repetir o que fiz em minha visita anterior em 1965: andar de um canto ao outro e observar como ela está sempre olhando para você. Com tantas maravilhas no museu, por que essa idolatria por um quadro específico? Coisas da cultura popImpressão da Mi: "Vi a Mona Lisa, é emocionante ver a original, foi meio de longe porque havia mil pessoas querendo tirar foto, flashes e algumas pessoas com desodorante vencido! Mas ela é linda! Mas não é o único quadro lindo, há montes de perfeiturinhas por lá."

Entre essas maravilhas, a Galeria Médicis com 24 quadros monumentais, e de perfeição absoluta, que a rainha Marie de Médicis encomendou ao pintor Rubens para ornamentar o Palais de Luxemburg; a sala Daru com pinturas neoclássicas de Jacques Louis David, o pintor oficial de Napoleão, e outros; a Allégorie chrétienne de Jan Provost; as Tentações de Santo Antônio de Pieter Huys, que se inspirou em Brueguel; as naturezas mortas de Frans Snyder, etc. etc. etc.
Mas o Louvre não se restringe às pinturas. Existe um mundo igualmente vasto de esculturas. E outro acervo imenso de antiguidades. E a ala Richelieu do 1o andar é toda dedicada às artes decorativas (objets d’art), com destaque para os suntuosos Appartments Napoléon, que no 2o Império abrigaram o recém-criado Ministério do Estado — a arte decorativa levada às últimas consequências. O mapa distribuído na entrada mostra claramente a organização das salas, alas e andares. Não dá para ver tudo. Você tem que priorizar algumas áreas em detrimento de outras. Nós optamos por nos concentrar nas pinturas, e vimos um pouco da arte decorativa — o resto fica para outra oportunidade futura.
Depois fomos ao Campo de Marte, onde fica a Torre Eiffel, para a festa de 14 de julho, que os franceses comemoram como se fosse um Réveillon, com queima de fogos, shows de cantores transmitidos em telões, etc. Um mar de gente — um milhão pelo que entendi um locutor dizer — acorreu à festa.

Quiche e suspiro

Paris, 15 de julho

Enfim conseguimos encontrar o Parque de Bagatelle (ver tentativa frustrada no dia 9/7), famoso pelo seu roseiral com dezenas de espécies diferentes de rosas. Vou dar o caminho das pedras: pega-se o metrô até a estação Porte Maillot, pega-se o ônibus 244, desce-se no Carrefour de Longchamps, pega-se a Route de Sèvres (a avenida) à direita e andam-se uns 900 metros (veja no Google Maps). A entrada custa 5 euros. Mas as rosas não são as únicas atrações desse parque aprazível, com gramados, árvores exóticas, pagode, exposições e um quiosque com mesinhas onde franceses charmosos e impecavelmente trajados batem papo em seu tão melodioso idioma — não é um parque invadido por turistas!

O proverbial francês mal-humorado perdeu-se no passado. Os franceses com quem topamos foram simpáticos, gentis. Se você se esforça em falar sua língua, respondem pausadamente para que você entenda (já o francês que falam entre si é tão incompreensível quanto um, digamos, cockney londrino ou português de Trás-os-Montes).

De manhã havíamos estado no Jardin du Luxembourg, um jardim tipicamente francês junto ao Palais du Luxembourg de 1631, que já foi palácio real e agora abriga o Senado. No laguinho octogonal crianças brincam com barquinhos a vela.

Os franceses parecem de bem com a vida. Vestem-se com elegância, mesmo os jovens em traje casual. Calçam sapatos, raramente tênis. As mulheres andam como se estivessem desfilando na passarela. A culinária francesa é insuperável: um simples suspiro (meringue) ou sanduíche de baguete ou crepe ou quiche já é uma festa para o paladar.

Cadeados do amor

16 de julho

Adieu Paris! Última volta pela Cidade Luz. O embarque no trem Eurostar para Londres é como num aeroporto, com check-in, passagem da bagagem pelo detector de metais, duty free, até migração — perguntam o que você vai fazer em Londres, há quanto tempo está viajando, um interrogatório. Bom chegar na Gare du Nord uma hora antes da partida do trem para fazer tudo com calma.

PARTE 3: LONDRES

"When a man is tired of London, he is tired of life"
Dr. Johnson


Londres, 17 de julho de 2011

Primeiro dia de Londres. Tão diferente de Paris: a exuberância francesa dá lugar à fleuma britânica. Ao chegarmos no nosso bed & breakfast, o Limegrove Hotel (101, Warwich Way, perto da Victoria Station), que paguei com dez meses de antecedência para garantir o preço de £540 por nove noites, uma surpresa: se da última vez em que lá estivemos pareceu um pouco decrépito (mas mesmo assim valendo a pena por causa do preço camarada), agora o encontramos totalmente renovado, paredes pintadas, quadros pendurados, etc. Um único defeito: quarto apertado.

Para utilizar os transportes de Londres, não deixe de adquirir o cartão Oyster: você pode carregá-lo em guichês ou máquinas ou mesmo pela Internet e andar à vontade pelo metrô e ônibus. Por mais que você utilize os transportes, não pagará por dia mais do que um teto de 8 libras e, se evitar o horário do rush matinal (4:30 às 9:30 de segunda a sexta), o teto é ainda menor (£6,60 nas zonas 1 e 2, que abrangem quase todos os locais turísticos).

A rede de metrô é ainda mais intricada que a parisiense, mas a orientação é mais fácil: as linhas têm nomes (Circle Line, Victoria Line...) e as direções são southbound (sul), northbound (norte), eastbound (leste), westbound (oeste). Elementar, não? Não tem cheiro de urina nas galerias, os londrinos não pulam a catraca pra não pagar passagem e não tem artistas de rua se apresentando nos vagões como em Paris.

Hoje, domingo, é dia dos oradores exercerem sua liberdade de expressão no Speaker’s Corner, no Hyde Park (estação de metrô Marble Arch). Não sei se por causa do tempo chuvoso ou porque já estava tarde (quase meio-dia), apenas um orador, um pregador cristão negro que se dizia seguidor do método socrático de fazer perguntas para obter respostas, enfrentava os contra-argumentos dos céticos e ateus e as chacotas dos engraçadinhos. Pois faz parte da tradição do Speaker’s Corner que engraçadinhos (alguns já meio tocados pela cerveja) fiquem espicaçando e zoando os pobres oradores, arrancando risos da plateia.

Depois fomos de metrô (pretendíamos ir a pé, mas a chuva frustrou os planos) até o Museu de História Natural (estação de metrô South Kensington), que ocupa uma imponente construção vitoriana no estilo German Romanesque (românico alemão). No museu vimos um pouco de tudo: pedras e metais preciosos ou raros (um meteorito provindo de Marte, por exemplo), uma simulação de terremoto, um gigantesco esqueleto de baleia-azul e seu respectivo (e ainda mais gigantesco) modelo, animais empalhados da coleção histórica (alguns de espécies já extintas, como o dodô — hoje em dia o museu não pratica mais o empalhamento de animais), fósseis e fragmentos de dinossauros e outros seres pré-históricos.

Jantar no Pizza Hut, agora com salada grátis, mas refrigerante pago. Entre uma "atração" e outra a gente sempre caminha bastante para observar a cidade — a arte de flanar que abordo no meu Literatura & Rio de Janeiro.

Barco-moradia no Regent's Canal

Londres, 18 de julho

Fizemos o passeio ao longo do Regent’s Canal da pág. 264 do guia Eyewitness Travel de Londres (os Guias Ilustrados da Folha são traduções dessa série). Achei que, usando o guia original em vez da tradução portuguesa, as coordenadas seriam mais exatas e não nos perderíamos, mas me enganei. Mais de uma vez erramos de direção e tivemos de voltar atrás e corrigir a rota.

A vantagem desses passeios do guia é que nos conduzem até lugares inusitados fora das atrações turísticas mais óbvias. Desta vez percorremos a margem de um canal (que em certo trecho se chama Little Venice, Pequena Veneza), com barcos-moradias ancorados e vasos de flores, adentramos o Regent’s Park, subimos uma colina (Primrose Hill) de onde divisamos a silhueta dos prédios de Londres, percorremos um bairro sossegado ao norte que, por estar além do mapa da cidade vindo junto com o Guia, chamei de “fim do mundo”, e fomos parar no badalado Camden Market (na verdade, um complexo de mercados), uma mistura de feira hippie, mercado de pulgas, praça de alimentação e point ultrajovem, parte dele (o Stable Market) instalado num antigo complexo de estábulos da época em que predominava o transporte de tração animal. E, confirmando minha brincadeira de que chegamos no fim do mundo, deparamos com o pub The World’s End, que se autointitula “talvez o maior pub do mundo”.

Às sete e meia da tarde, tour pela área de Westminster (Old Westminster by Gaslight), sob chuva e frio (frio de inverno paulistano em pleno verão londrino — aquecimento global não chegou aqui). Os London Walks são uma instituição londrina, existem há décadas e são a melhor maneira de conhecer os segredos e meandros de Londres, seus pubs e fantasmas inclusive, se você tiver treinado seus ouvidos para entender o inglês britânico. Os guias não são aqueles guias de turismo convencionais, e sim especialistas nos assuntos, alguns autores de livros, outros também atores. Os passeios ocorrem sempre, vários por dia, faça chuva, neve ou sol. Cinco minutos antes quatro ou cinco gatos pingados aguardam no ponto de encontro. No último minuto, um bando de participantes, e às vezes o próprio guia, surgem do nada. O passeio custa oito libras, mas se no primeiro passeio você pagar dez libras recebe um Discount Walkabout Card e nos próximos pagará só seis.


Palácio de Westminster ao anoitecer

O ponto de encontro do passeio foi uma das saídas da estação de metrô Westminster — os passeios sempre começam em saídas do metrô. No intervalo de sete às nove da noite nossa guia, Angela (uma atriz!) conduziu-nos pelo entorno do Palácio de Westminster e por um conjunto de ruelas "ocultas" do início do século XVII que vão dar no Smith Square, onde moraram celebridades como Lawrence da Arábia e com a velha iluminação a gás preservada (embora o acendedor de lampiões tenha dado lugar a um mecanismo automático). Após um pit-stop num pub tradicional, atravessamos até o outro lado do Thames (Tâmisa) pela Lambeth Bridge, de onde tivemos uma bonita vista do Palácio de Westminster ao anoitecer (foto acima), enquanto a guia contava como o rio já foi pestilento e, depois de um trabalho de despoluição, se tornou um dos rios urbanos mais limpos da Europa. Enfim retornamos à margem esquerda pela Westminster Bridge adiante.
Jantar no Pizza Hut de novo, com salada grátis.

Eu & Isambard

Londres, 19 de julho

Museu de Cera Madame Tussauds: uma instituição londrina que remonta à coleção de máscaras mortuárias de vítimas da Revolução Francesa e efígies de heróis e vilões trazidas por Madame Tussaud à Inglaterra no início do século XIX. As pessoas vão lá para se deixarem fotografar junto às réplicas de celebridades do cinema, dos esportes, da ciência, das artes, da política, como se convivessem de sua intimidade — a exemplo da minha foto acima junto com Isambard Kingdom Brunel, pioneiro da engenharia ferroviária, o meu boné contrastando com sua elegante cartola. Não venha ao Madame Tussauds sem ter comprado previamente o ingresso pela Internet. Senão você esperará (em julho, pelo menos, época de férias escolares) no mínimo duas horas na fila. Uma fila traiçoeira, labiríntica. Quando você pensa que está chegando na bilheteria descobre que ela prossegue num recinto novo, ou numa escada, ou em outro pavimento. O museu superlota e custa caro (£28,80), mas é diversão garantida com suas figuras, algumas tão reais que você confunde com pessoas de verdade, a câmara dos horrores (que diverte mais do que assusta), o Spirit of London, uma viagem de "trenzinho" pela história londrina, e agora o cinema em 4-D com projeção na cúpula do antigo planetário: ao 3-D que você já conhece (mas levado ao extremo) se acrescentam sensações como de água respingando, do chão tremendo, cutucadas nas costas, etc.

Depois andamos, andamos, andamos (um excelente método para se conhecer uma cidade): Marylebone adentro até Oxford Street (onde Mi passou uma hora na enorme e barateira loja de departamentos Primark enquanto eu zanzava pelo Hyde Park próximo enfrentando a chuva com minha poderosa capa impermeável — não venha para Londres sem capa de chuva), depois fazendo um corte transversal pelo boêmio bairro Soho e enfim jantando num restaurante de Chinatown (Kowloon Oriental Buffet, na Gerrard Street) onde você pode comer comida chinesa até estourar pelo preço fixo de £8,50 — a Mi enfim matou as saudades do arroz, alimento raro aqui na Europa (do feijão só mataremos as saudades quando retornarmos).

Millenium Bridge & St. Paul's Cathedral

Londres, 20 de julho

A chuva apertou: no início da noite a estação de metrô Covent Garden foi fechada por motivos de flooding, alagamento.

Segundo Samuel Johnson, quando um homem está cansado de Londres, está cansado da vida. Como não estamos cansados nem de uma coisa, nem da outra, visitamos o Museum of London (estação de metrô St. Paul’s, Barbican ou Moorgate), que conta a história dessa fascinante cidade, a maior de toda a Europa. Começa pela pré-história (London before London), passando pela Londres romana, as invasões anglo-saxônicas, a Londres medieval, guerras, a Peste que dizimou metade da população da cidade e o incêndio de 1666 que destruiu dois terços da cidade. No subsolo, a Londres moderna, do final do século XVII aos dias de hoje (até os Beatles estão lá). Se você gosta de Londres (e, consequentemente, da vida) vai gostar do museu.

Incrível a capacidade dos ingleses de montar museus "vivos", interativos, recriando ambientes inteiros, como um pleasure garden da segunda metade do século XVIII com um filminho projetado em diferentes cenários (paredes), ou trazendo para os museus peças enormes como (no caso do Museum of London) uma antiga cabine de elevador do Selfridge’s, um piso em mosaico da era romana encontrado em escavações, uma cela de prisão onde os prisioneiros matavam o tempo entalhando seus nomes ou desenhos nas paredes de madeira. Os textos explicativos têm a vantagem de ser em inglês (melhor que alemão, né?!) e são repletos de perguntas instigantes e informações interessantes.

Descemos em direção ao Thames passando pela St. Paul’s Cathedral e por uma área repleta de pubs, com montes de clientes na porta (mesmo o interior sendo tão aconchegante — seriam fumantes?). Atravessamos a Millenium Bridge, uma moderna ponte de pedestres, até a margem sul do rio, lá passamos pelas réplicas do Globe Theater de Shakespeare e do galeão Golden Hinde de Sir Francis Drake, retornamos para a margem norte pela London Bridge (uma ponte moderna, de 1972, quase no mesmo local daquela que os romanos construíram nos tempos antigos), matamos as saudades da Torre de Londres e do fish and chips e repetimos a fórmula pizza + salada grátis no Pizza Hut de Covent Garden.

Casa de Dr. Johnson

Londres, 21 de julho

Iniciamos a jornada londrina andando do hotel até a Tate Britain, museu dedicado à arte britânica em todas as épocas, preenchendo assim a lacuna deixada pelo Louvre (ver 14 de julho).

As obras não estão expostas em ordem cronológica, e sim por núcleos temáticos. Concentramo-nos nas obras clássicas, românticas e de influência impressionista, e saltamos as salas de arte moderna, da qual o museu possui vasto acervo. Dignos de nota o grupo Past and Present de Augustus Leopold Egg, The Fairy Lovers de Theodore Von Holst, as experiências de Turner com jogos de luz, fenômenos atmosféricos e a indistinção dos contornos, prenunciando a pintura moderna (algumas de suas obras talvez pareçam modernas por terem ficado inacabadas!)

Depois retornamos à monumental St. Paul’s Cathedral, a Catedral de São Paulo, que já havíamos visitado em viagem anterior (clique em Londres no menu da direita para ver o diário da viagem de 2009).

A frase de Samuel Johnson sobre Londres que lemos no London Museum (ver 20 de julho) despertou a vontade de conhecer a casa onde o autor do primeiro dicionário da língua inglesa — considerado o primeiro dicionário moderno, com milhares de citações literárias extraídas de sua “memória de computador” — residiu por alguns anos depois que assinou contrato com um editor para entregar o dicionário em três anos. Quando um amigo observou que quarenta membros da Academia Francesa levaram quarenta anos para compilar seu dicionário, Dr. Johnson respondeu que os ingleses estão para os franceses como três está para 1600 (=40 x 40). Mesmo assim, atrasou seis anos.

A Dr. Johnson’s House fica meio escondida numa pracinha acolhedora que se acessa através de um beco. No início do século XX, quando abrigava uma gráfica, foi descoberta por um magnata da imprensa que a adquiriu e restaurou como no tempo do Dr. Johnson. A visita dá a oportunidade de penetrar na intimidade dessa incrível figura humana, com memória fotográfica, que quando a mãe o trancava no quarto e dizia que só poderia sair depois de decorada a lição logo em seguida a seguia escada abaixo recitando o texto instantaneamente memorizado, que enchia a casa de amigos com medo de que a solidão o enlouquecesse, que legou uma renda anual de 70 libras (uma fortuna) a um filho de escravos que o serviu (devidamente remunerado) a vida inteira. As definições do dicionário de Johnson (do qual até hoje se edita uma antologia) são consideradas precisas pelos padrões modernos, mas algumas são pitorescas, como a de aveia: “Cereal que na Inglaterra geralmente se dá aos cavalos mas que na Escócia parece sustentar as pessoas.”

Monument (memorial às vítimas do Grande Incêndio de 1666), ponto de partida do London Walk de hoje

Londres, 22 de julho

Onze horas da noite da sexta-feira e as ruas centrais e o metrô ainda estão cheios como em pleno dia. Chove fino.

Amanheceu com o maior sol, e deu até para pegar um pouco de sol no meio do dia numa praça. Mas quem disse que o sol em Londres perdura?

Às sete e meia da tarde fizéramos um London Walk clássico, Haunted London, com um guia-ator de sotaque londrino que exigia um grande esforço para se entender e que nos conduziu por vielas remanescentes do traçado medieval da cidade e velhas igrejas em ruínas e ruas da City, enquanto contava histórias de arrepiar os cabelos de crimes e aparições.

À tarde revisitamos o Victoria and Albert Museum, que deve ser o maior museu de artes decorativas do mundo, onde já havíamos estado (duas vezes) na viagem anterior. Visitamos as duas British Galleries, 1500-1760 no Level 2 (2o piso) e 1760-1900 no Level 0 (subsolo), que mostram a evolução do design, decoração de ambientes e moda através dos séculos. Dignos de nota os quadros A naughty child e The Old Shepherd's Chief Mourner de Sir Edwin Landseer.

De manhã havíamos visitado a antiga casa de um dos maiores arquitetos ingleses, Sir John Soan, que morreu no ano em que a Rainha Vitória ascendeu ao trono, 1837. Era uma casa muito engraçada, cheia de espelhos, alguns ocultos, que ampliam a sensação de espaço, claraboias que deixam entrar a luz natural, uma biblioteca de 7 mil livros, uma picture room com um engenhoso sistema de “planos móveis” que permite alternar entre dois jogos de quadros, câmeras subterrâneas repletas de antiguidades. Antes de morrer seu dono legou a casa à nação, estipulando que fosse mantida no estado em que a deixou.

Escadaria em Trafalgar Square

Londres, 23 de julho

Último sábado da viagem. Visitamos a National Portrait Gallery (ao lado da National Gallery, em Trafalgar Square), uma coleção de retratos (quadros, algumas esculturas e modernamente algumas fotos também) das grandes personalidades — reis, rainhas, nobres, políticos, artistas, cientistas, militares... — da história britânica. Um museu assim não existe em nenhuma outra parte. Os britânicos têm uma tradição de retratismo, e além da beleza estética dos quadros — quanto mais antigos, mais bonitos: involução? — você lê as biografias dos retratados: um misto de máquina do tempo com revista de fofocas.

Após um lanche nas escadarias lotadas de Trafalgar Square, comprado num mercado próximo, fizemos um passeio a pé sugerido por nosso guia Eyewitness Travel: A Two-Hour Walk Through Mayfair to Belgravia. Os passeios do guia sempre duram bem mais que o tempo previsto (um passeio de duas horas acaba durando no mínimo três) e por vezes o texto é obscuro e você se perde por algum tempo, mas têm a virtude de levar você a lugares menos turísticos, menos manjados. O passeio começa pelo aristocrático bairro Mayfair, atravessa o Hyde Park — onde por alguns momentos nos sentamos num banco à beira do lago The Serpentine e ouvimos mais árabe do que propriamente inglês — e termina no encantador bairro de Belgravia, com seu Pantechnicon, praças, ruelas, um dos menores pubs de Londres (Nag’s Head) e mews, que eram as antigas entradas para os estábulos das casas.

Depois de tanto Chinatown e Pizza Hut, enfim fomos provar da comida de botequim, ou melhor, the best British pub food and drink, no Taylor Walker: os deliciosos hambúrgueres da casa (não industrializados) como só os britânicos sabem fazer.

Domingo no Hyde Park

Londres, 24 de julho

Enfim o sol saiu pra valer, sem ventos frios, sem chuvas súbitas. Despedida de Londres e da viagem.

De manhã, National Gallery, um de nossos museus de arte favoritos, por mostrar a evolução cronológica da pintura (do século XIII ao início do século XX), organizada pelos diferentes países ou mesmo regiões/cidades, de forma equilibrada, sem privilegiar nenhum país ou escola específica. Além disso, os ingleses desenvolveram uma museologia interativa, didática, com explicações claras, objetivas e interessantes (ainda por cima em inglês, língua que “todo mundo” entende) não só sobre as escolas artísticas, mas também sobre cada quadro. Tudo está bem explicadinho.

Depois de lanchar nas escadas de Trafalgar Square, fomos andando (vendo coisas e tirando fotografias no caminho) até o impressionante (pela imponência arquitetônica e pelo acervo descomunal) British Museum, que já havíamos visto detalhadamente na viagem anterior, onde nos limitamos a algumas antiguidades gregas — aqui mostradas como foram encontradas, ao contrário do Pergamonmuseum, onde as ruínas antigas foram reconstruídas com acréscimo dos elementos faltantes — e à fascinante arqueologia funerária egípcia. Triste destino das múmias, preservadas para garantir uma vida pós-morte, hoje expostas à curiosidade das multidões.

Depois fomos dar tchau ao Palácio de Westminster, tchau London Eye (a gigantesca roda-gigante onde nunca tivemos coragem de subir — a vista do alto da St. Paul’s nos satisfez), tchau Rio Tâmisa, tchau Trafalgar Square, tchau Leicester Square (diz-se Lester Square) e tchau estátua de Eros no Piccadilly Circus, que voltou a nos flechar.

Quebramos a cara tentando comer de novo num pub: depois das nove da noite eles não servem mais comida. Tivemos que nos contentar com um hambúrguer de um restaurante italiano, servido numa ciabatta e acompanhado (entre outros ingredientes) de rúcula.

O Centro de Londres sempre lotado, mesmo às onze da noite de domingo. A cidade embriaga, você não consegue voltar para casa cedo. Carpe diem!

Tchau, Londres!

25 de julho

Deixamos o hotel cedo para pegar nosso voo das 13:15 de volta ao Rio. A viagem de metrô até o Aeroporto de Heathrow (Piccadily Line) é demorada. O aeroporto é um mundo. São cinco terminais, e num mesmo terminal uma espécie de metrô interno faz a ligação entre as áreas de embarque. Decolam de lá por semana 1800 aeronaves: quase onze por hora. Dá para perceber o intenso tráfego aéreo, a série de aviões decolando, um atrás do outro, quando se está na Trafalgar Square ou no Hyde Park. Diante dessas estatísticas não dá mais para ter medo de andar de avião (embora, segundo meu amigo Márcio Steinbruch, na hora que o avião entrar numa dessas “tesouras de vento”, você vai esquecer rapidinho as estatísticas).

Uma última dica: com a taxação sobre operações com cartão de crédito no exterior, a melhor pedida é ativar seu cartão de débito para poder usar os serviços Maestro e Cirrus no exterior. Fale com seu gerente.

Depois de seis semanas sem notícias do Brasil (no news is good news), o que nos aguarda?

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4 comentários:

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

adooooooooorei!!!!!!!!!
E eé claro que voltarei sempre. dgustei cada palavra sua como se fosse possível engasgar. Amo BERLIM, minha mãe nasceu aí e costumo visitar e andar por aí todo ano
Adorei o post, perfeito.
Abraços

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

AMEI A GIRAFA!
QUER SABER QUERIDO ABURRINHA AZQUI NÃO ACHOU O BLOG DOS CEMITERIOS.
MAS TROCANDO DE ASSUNTO TENHO NA MINHA CASA UM SALA QUE É UM RÉPLICA DO CASTELO DE NEUSCHWANTEIN, UM HOMEM SEGURANDO UMA PORTA[ DA SALA DE MÚSICA DO CASTELO, ] COLOQUEI NA SALA DE JANTAR E É FEITO EM PEDRA.AMO E SEI TUDO SOBRE O REI LUDWIG.
BEIJOS MEU NOVO AMIGO.

ALlan disse...

Bom dia,
gostei muito do seu texto.Parabéns pela descrição.
Mas tenho uma questão difícil
tenho que escolher entre Viena e Munique
qual escolher?
devo ir a
Berlim, Dresden(nao sei se durmo em Dresden...dúvida..cvale a pena?) e Praga..depois tenho que optar entre Viena e Munique
que fazer?
abraços

Ivo Korytowski disse...

Allan, Viena é mais imponente, a ex-capital de um grande império, se você aprecia arquitetura e pintura e jardins deve ir lá. Munique é divertida, é o "Rio de Janeiro" alemão, bom chope, boa comida, mas também tem bela arquitetura e grandes museus. Tire par ou ímpar! Qualquer uma das duas será uma bela escolha. Praga é linda, lá foi filmado o Amadeus de Milos Forman.
Boa viagem,