RESOLVI ACREDITAR QUE VAI DAR CERTO, de RENATO MOTTA


Aldir Blanc escreveu que “o Brazil não conhece o Brasil... o Brasil nunca foi ao Brazil... o Brazil tá matando o Brasil”. No caso de “Querelas do Brasil”, a canção de onde eu tirei esses versos, o “Brazil com Z” era o país que se via de fora. O país do atraso, da fome, da corrupção. O Brasil dos anos 70.

O Brasil que se vê de fora hoje em dia, 40 anos depois, é o país da violência, do desencanto, da corrupção. Mudaram alguns fatores, mas a corrupção continua firme e forte. No entanto, existe um Brasil que não se vê e não aparece nos noticiários. É o país de natureza exuberante que bate recordes na produção agrícola (apesar das dificuldades para escoar os produtos); é o país que produz muito petróleo (apesar dos roubos na Petrobras); é o país do povo valente e trabalhador que madruga para pegar no batente (apesar do colapso nos transportes públicos); é o país das pessoas acolhedoras e de boa índole (apesar da violência nas ruas).

O Brasil é o país com a maior área cultivável do planeta inteiro; tem o maior rebanho de gado comercial do mundo; tem riquezas minerais incalculáveis, uma biodiversidade admirável, um clima abençoado, a maior bacia hidrográfica que existe. Tudo isso são tesouros que a gente muitas vezes esquece de valorizar.

Resolvi acreditar que ainda existe um belo futuro e que o país tem saídas. Mudei o foco para salvar a esperança que agonizava num canto do meu coração. Alguns amigos começaram a renegar a ideia do Brasil que não dá certo, o Brasil dos noticiários. Isso é ótimo! Eles deixaram de assistir às novelas dos escândalos, deixaram de brigar nas redes sociais por meliantes que assaltam os cofres públicos e apostam na impunidade. Eu resolvi entrar no bloco dos otimistas. Decidi ver toda essa bagunça como um bom sinal. O país está na fase de arrumar os armários, jogar fora as coisas velhas, abrir as janelas, sacudir os tapetes para tirar o pó acumulado, varrer a podridão, limpar o mofo dos cantos e apagar a tristeza dos rostos.

O desemprego continua elevado, mas o da Espanha chegou a 30%  o dobro do índice brasileiro  e os espanhóis se reergueram. Vem aí uma eleição para presidente e uma nova chance de mudar o cenário político do país. Como sempre faço, vou votar no candidato que vai perder. Sei disso porque só voto nos candidatos de uma tecla só: os que defendem a educação, depois a educação, e por fim a educação. Eles não ganham eleição, mas sempre recebem o meu voto. Porque eu acho que quando a educação de um país melhora as peças soltas do quebra-cabeça se encaixam sozinhas. Isso aconteceu na Coreia do Sul, na Malásia, em Singapura e em outros países.

Não quero transformar esse texto em mais uma bandeira contra os oportunistas de Brasília que vivem em sua ilha e não enxergam o imenso mar em volta. Quero deixar aqui a minha semente de esperança e a certeza de um sol que vai acabar nascendo, por mais que a mídia, os bandidos, as ideologias equivocadas e os corruptos de todas as cores tentem evitar. O Brasil é maior que tudo isso, pode se tornar mais forte, mais unido, mais otimista.

Drummond dizia que existe mais de um Brasil. Tinha razão, existem vários brasis. Resolvi acreditar, até segunda ordem, no Brasil que vai dar certo. Resolvi crer de novo, nem que seja para salvaguardar a minha paz de espírito. Se a estrada engarrafar de novo a gente tenta outro caminho e busca outro sol, outra esperança, outro renascimento. O Brasil é tão grande que cabe tudo isso nele. A escuridão da noite sempre perde para a manhã que nasce. Começo a achar que um sol belo e caloroso está para nascer no Brasil. É mais gostoso pensar assim. É mais reconfortante. É mais patriótico. Recomendo a todos.

DICA DE LIVRO: EM ALTO MAR, de EDMONDO DE AMICIS


Entre 1880 e 1914, quase quinze milhões de italianos emigraram, o equivalente a metade da população do país na virada do século. Apesar da amplitude do fenômeno, poucos autores nacionais escreveram sobre o tema. Entre eles figura Edmondo De Amicis (1846-1908), hoje reconhecido como um dos maiores escritores da península. Repórter, militante pacifista e testemunha atenta da Itália unificada, ele foi enviado em 1884 por seu editor à América do Sul para uma turnê de palestras. A travessia é um choque para ele e irá desempenhar um papel importante na sua adesão ao socialismo: embora viaje na primeira classe, ele descobriu a miséria dos emigrantes e, na promiscuidade imposta do navio, as desigualdades terríveis da jovem nação. Verdadeiro entomologista a bordo, sabendo mesclar humor e realismo em seus retratos de burgueses e pessoas humildes, bem como na descrição das peripécias da viagem, esse grande admirador de Zola levará cinco anos para escrever o primeiro exemplo bem-sucedido de romance-reportagem. (Texto obtido no site das Éditions Payot & Rivage, traduzido para o português pelo editor do blog.)

A obra foi publicada pela primeira vez no Brasil em 2017, em edição primorosa, de capa dura, com o título Em Alto-Mar, pela Nova Alexandria em coedição com o Istituto Italiano di Cultura, e tradução, curadoria e notas de Adriana Marcolini. Uma outra tradução em língua portuguesa, integrando a tese de mestrado de Regina Celia da Silva, pode ser acessada na Internet (aqui). A seguir trechos selecionados, pela beleza estilística e descritiva, dessa obra-prima da literatura de viagem.

Embarque de italianos para o Brasil, 1910. Fonte: site do Museu da Imigração.

Sensação agradável no início da viagem (p.33)
Mas eu não me entediava: uma sensação me enchia a alma, nova e agradabilíssima, que não se pode ter em nenhum lugar, em nenhuma condição no mundo, a não ser em um navio que atravesse o oceano: a sensação de uma total liberdade de espírito. Em poucas palavras, eu poderia afirmar: durante vinte dias estou separado do universo habitado, estou certo de não ver outros semelhantes a não ser aqueles que estão à minha volta, que para mim são todo o gênero humano; durante vinte dias estou livre de qualquer dever e de qualquer obrigação social, e estou seguro de que nenhum sofrimento do mundo exterior me atingirá porque nenhuma notícia de lugar nenhum pode me alcançar. A Europa pode se sublevar, eu não o saberei. Vinte dias de horizonte sem limite, de meditação sem chateações, de paz sem temor, de ócio sem remorso.

Visão infinita das águas (p. 91)
Diante daquela visão infinita das águas que não revela nenhum vestígio do homem nem do tempo, o objetivo da nossa viagem, os nossos interesses, o nosso país, tudo nos parece tão longe, confuso, pequeno, insignificante! E pensar que três dias antes de partir ficamos magoados com a despedida fria de um conhecido encontrado na rua Barbaroux... Que lástima! Agora aquelas lembranças parecem recordações de outra existência que vêm à tona apenas um momento, e em seguida despencam; se afogam naquele abismo enorme que se nos abre abaixo e à nossa volta. E nos abandonamos ao mar a bordo de um navio imaginário que navega e navega sem parar, para além das últimas terras [...]

Tempestade em alto-mar (pp. 237-8)
Lembro-me da imensa voz do mar, mais estranha e mais formidável do que a mais assustadora fantasia, uma voz que parecia a de toda a humanidade enlouquecida e comprimida que estivesse aos berros, que se mesclava com os rugidos e os bramidos de todas as feras da terra, com os estrondos de cidades em ruínas, os urros de inúmeros exércitos, as explosões de risadas irônicas de povos inteiros, e dentro daquela voz, o assobio estridente do vento nos cordames, um redemoinho de notas longas, ruidosas e desencontradas, como se cada corda fosse um instrumento tocado por um demônio, gritos de desespero e de delírio que pareciam vir dos prisioneiros de um cárcere em chamas, e sibilos que faziam tremer como se em volta das antenas se enroscassem milhares de cobras furiosas. Toda vez que a ponta do navio era empurrada com força para a água, a embarcação começava a balançar violentamente de um lado para o outro, a ponto de dar a impressão de que quisesse tombar ora para um costado ora para outro, e a cada batida da onda no costado, tudo tremia, do convés à quilha, como se chocasse em um arrecife ou em outro navio, e as tábuas ao redor produziam um ruído de arrepiar da cabeça aos pés, como o estampido de uma bala ou de uma lâmina de machado que passa rente às nossas têmporas.

Um dia de cão (pp. 218-20)
Se for verdade que em toda longa viagem marítima exista algo como “um dia de cão”, em que tudo dá errado e o navio vira um inferno, creio que o Galileo teve o seu. [...]

Subi para o convés, onde estavam quase todos os passageiros: todos tinham rostos de quem tivesse passado a noite em colchões com pregos. As antipatias recíprocas tinham atingido aquele limite que separa o silêncio desprezível da injúria declarada. Tropeçavam uns nos outros sem se cumprimentarem. A própria “domadora”, que havia vários dias vivia em uma espécie de efervescência de amor maternal por todos, mantinha-se afastada; via-se que estava abatida como se no seu coração lhe revolvesse todo o licor Chartreuse da sua despensa secreta. O genovês veio ao meu encontro com uma cara sinistra, e fixando-me no rosto com o seu único olho, disse com uma cara zangada: – O senhor sabe o que há de novo esta manhã?... Nada de gelo! A máquina quebrou e o marinheiro cortou a mão! [...] O meu vizinho de cabine, apoiado no mastro da mezena, também estava mais transtornado do que o normal. No rosto e na roupa mostrava todos os sinais de que tinha passado a noite no convés para não ser torturado lá embaixo pela sua tirana. Até mesmo os recém-casados, sentados um ao lado do outro em um sofá de ferro, tinham uma expressão adormecida, e estavam mudos como se pela primeira vez estivessem cansados e irritados com aquela cama apertada em que havia três semanas eram obrigados a estudar o espanhol.

Terceira classe, 1907. Foto: A. Stieglitz. Fonte: Site do Museu da Imigração

Chegada na América (p.264)

Que agradável despertar! Aquelas palavras “hoje sentiremos a terra debaixo dos pés”, nas quais se expressava o pensamento de todos, tinham para nós um som e uma força novos, e ao repeti-las sentia-se uma espécie de prazer físico, como aquele que se tem ao abraçar uma coluna de granito. Além de outras razões, também se desejava impacientemente chegar por esta, pois ao final de uma longa navegação já nos sentimos cansados e irritados a ponto de não aguentar mais aquela perpétua dança de limites, aquela necessidade incessante de se encolher, de se encurvar e contorcer a que estamos obrigados pela falta de espaço, e aquele eterno cheiro de salsugem, de alcatrão e de madeira. Que alegria será ver novamente as ruas, respirar o aroma do campo, e dormir entre quatro paredes, sem mais sentir que a casa que nos acolhe tem uma palpitação de vida própria, da qual depende a nossa!

SENADORES QUE VOTARAM A FAVOR E CONTRA A REFORMA TRABALHISTA

Senadores que votaram a favor e contra a Reforma Trabalhista que abole o famigerado imposto sindical obrigatório que sustenta a farra dos sindicatos, acaba com a indústria dos processos trabalhistas espúrios da qual quase todo empregador (inclusive empregadores domésticos) já foi vítima e abre perspectivas de redução do desemprego (a conferir). Nas próximas eleições, leve em conta esta relação. Fonte: Blog do Reinaldo.
"Se nada tivesse feito, só a aprovação da reforma trabalhista justificou a presidência de Michel Temer. É um avanço fundamental para o País, porque abre portas ao crescimento, anima investidores a oferecerem mais postos de trabalho. O primeiro impacto é a inserção de 14 milhões de pessoas na economia formal. É mais importante para o 'Brasil real', que gera empregos e paga impostos, do que a reforma da previdência." (Cláudio Humberto no Diário do Poder)

APROVARAM
Aécio Neves (PSDB-MG)
Ana Amélia (PP-RS)
Antonio Anastasia (PSDB-MG)
Airton Sandoval (PMDB-SP)
Armando Monteiro (PTB-PE)
Ataídes Oliveira (PSDB-TO)
Benedito de Lira (PP-AL)
Cássio Cunha Lima (PSDB-PB)
Cidinho Santos (PR-MT)
Ciro Nogueira (PP-PI)
Cristovam Buarque (PPS-DF)
Dalirio Beber (PSDB-SC)
Dário Berger (PMDB-SC)
Davi Alcolumbre (DEM-AP)
Edison Lobão (PMDB-MA)
Eduardo Lopes (PRB-RJ)
Elmano Férrer (PMDB-PI)
Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE)

Flexa Ribeiro (PSDB-PA)
Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN)
Gladson Cameli (PP-AC)
Ivo Cassol (PP-RO)
Jader Barbalho (PMDB-PA)
João Alberto Souza (PMDB-MA)
José Agripino (DEM-RN)
José Maranhão (PMDB-PB)
José Medeiros (PSD-MT)
José Serra (PSDB-SP)
Lasier Martins (PSD-RS)
Magno Malta (PR-ES)
Marta Suplicy (PMDB-SP)
Omar Aziz (PSD-AM)
Paulo Bauer (PSDB-SC)
Pedro Chaves (PSC-MS)
Raimundo Lira (PMDB-PB)
Ricardo Ferraço (PSDB-ES)
Roberto Muniz (PP-BA)
Roberto Rocha (PSB-MA)
Romero Jucá (PMDB-RR)
Ronaldo Caiado (DEM-GO)
Rose de Freitas (PMDB-ES)
Sérgio Petecão (PSD-AC)
Simone Tebet (PMDB-MS)
Tasso Jereissati (PSDB-CE)
Valdir Raupp (PMDB-RO)
Vicentinho Alves (PR-TO)
Waldemir Moka (PMDB-MS)
Wellington Fagundes (PR-MT)
Wilder Morais (PP-GO)
Zeze Perrella (PMDB-MG)
REPROVARAM

Alvaro Dias (Podemos-PR)
Ângela Portela (PDT-RR)
Antonio Carlos Valadares (PSB-SE)
Eduardo Amorim (PSDB-SE)

Eduardo Braga (PMDB-AM)
Fátima Bezerra (PT-RN)
Fernando Collor (PTC-AL)
Gleisi Hoffmann (PT-PR)
Humberto Costa (PT-PE)
João Capiberibe (PSB-AP)
Jorge Viana (PT-AC)
José Pimentel (PT-CE)
Kátia Abreu (PMDB-TO)
Lídice da Mata (PSB-BA)
Lindbergh Farias (PT-RJ)
Otto Alencar (PSD-BA)
Paulo Paim (PT-RS)
Paulo Rocha (PT-PA)
Randolfe Rodrigues (Rede-AP)
Regina Sousa (PT-PI)
Reguffe (Sem partido-DF)
Renan Calheiros (PMDB-AL)
Roberto Requião (PMDB-PR)
Romário (Podemos-RJ)
Telmário Mota (PTB-RR)
Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM)
ABSTENÇÃO
Lúcia Vânia (PSB-GO)
AUSENTES

Acir Gurgacz (PDT-RO)
Hélio José (PMDB-DF)
Maria do Carmo Alves (DEM-SE)

MEDO DA MORTE SEGUNDO O PSICANALISTA FRANCISCO DAUDT


A morte é a morte dos outros. Ninguém pode ter a representação psíquica de sua própria morte. Todas as vezes que nos imaginamos mortos estamos vivos, somos um defunto que ouve e vê, conta as pessoas presentes em seu enterro, observa suas expressões, confere as coroas de flores, lê o obituário dos jornais, se encanta por encontrar os entes queridos no céu ou se aterroriza por despertar fechado dentro do caixão. Em suma, estamos vivos.

Então que diabo é esse tal medo de morrer que tantas pessoas têm? Mais uma vez é o medo de alguma coisa diferente da morte e que imaginamos a partir de nossas experiências de vida. Um medo parente daquele dos navegadores do século XV, o medo do imaginado e não do desconhecido. É medo de coisas de vivos. Há o medo de ser enterrado vivo (então não se morreu), o medo de uma morte sofrida, de uma agonia (coisa de gente viva), o medo de ir parar no quinto dos infernos (continua-se vivo lá, então). Nunca ouvi ninguém dizer que tinha medo de passar ao estado de espírito que se sente durante uma anestesia geral, ou seja, nada. O mais perto disso era o medo de virar carne podre, mas este não adianta, a pessoa continua viva.

Esses medos são produtos finais de pensamentos mantidos sob repressão. Muitos são resultados de um temor de punição, representantes das ameaças variadas que Freud reuniu com o nome de angústia de castração. Alguns representam a sensação de não ter aproveitado da vida, de tê-la deixado passar sem tomar as decisões que sempre soubemos necessárias. A aflição de prazo se esgotando. Outros são temores de ser feliz deixando outras pessoas infelizes, seria a vingança dos infelizes.


Texto extraído de A CRIAÇÃO ORIGINAL: A TEORIA DA MENTE SEGUNDO FREUD, pp. 291-2.

SGT. PEPPER'S LONELY HEARTS CLUB BAND: 50 ANOS DEPOIS



It was twenty years ago today,
Sgt. Pepper taught the band to play
They've been going in and out of style
But they're guaranteed to raise a smile
So may I introduce to you
The act you've known for all these years,
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

We're Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band,
We hope you will enjoy the show,
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band,
Sit back and let the evening go.
Sgt. Pepper's lonely, Sgt. Pepper's lonely,
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

It's wonderful to be here,
It's certainly a thrill.
You're such a lovely audience,
We'd like to take you home with us,
We'd love to take you home.

I don't really want to stop the show,
But I thought that you might like to know,
That the singer's going to sing a song,
And he wants you all to sing along.
So let me introduce to you
The one and only Billy Shears
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

Esta semana faz cinquenta anos que foi lançado o melhor disco de rock de todos os tempos, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, A Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta. Quem não foi adolescente naquela época (eu fui!) não tem noção do impacto que o disco exerceu (assim como quem não viveu em Praga em 1787 não tem noção do impacto que a estreia da ópera mozartiana Don Giovanni exerceu, etc.) A gente estava acostumado com discos que eram coletâneas de sucessos do quarteto, alguns lançados originalmente em discos compactos, normalmente cantados ao vivo nos shows cada vez mais mega onde ficava difícil controlar a histeria das fãs. Não foi à toa que Lennon declarara que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. A Beatlemania conquistara o “mundo livre” (no bloco socialista, o "Segundo Mundo", essas manifestações de arte burguesa decadente costumavam ser proibidas). Sgt. Pepper's é o primeiro de uma sucessão de resultados da decisão do genial quarteto de abandonarem os shows e se dedicarem à pura criação artística em estúdio. Antes de Sgt. Pepper's música popular era uma coisa (efêmera, descartável), música clássica era outra (verdadeira música, eterna). Com Sgt. Pepper's a “música popular” – jazz, rock, etc. – ganha uma nova estatura e passa a ser a “música clássica” do século XX (hoje ninguém mais tem dúvida sobre isso, tem?). 

Querem saber qual foi minha primeira reação quanto voltei da loja depois de comprar o LP? Decepção! Estava acostumado com musiquetas de fácil assimilação, dançáveis, do conjunto (banda na época era conjunto) que conquistara minha geração, e eis que eles lançam um disco com músicas difíceis, elaboradas (a do Harrison, com cítara, eu pulava porque achava meio chata... até hoje ouço com relutância). O disco marcou uma revolução cultural na cabeça do meu papai. Meu pai praticamente só ouvia música clássica. Tenho até hoje guardados os seus LPs dos mestres da música. Quando meu irmão e eu “gamamos” por A Hard Day’s Night, a canção com que os Beatles estouraram (em compacto duplo que tinha na outra face She Loves You), meu pai estrilou: “Como vocês conseguem ouvir este barulho?” Mais ou menos a reação que tenho hoje ao ouvir música eletrônica. A única concessão que meu pai fazia à música não clássica era o samba – ele tocou cavaquinho na juventude. Pois bem, com Sgt. Pepper's meu pai se tornou um Beatlemaníaco tão fanático quanto os próprios filhos! Passou a comprar os discos dos Beatles, e ai de nós se nos apropriássemos dos discos dele para ouvir nas nossas reles vitrolas! Tínhamos que ter os nossos próprios, que acabavam totalmente arranhados de tanto que ouvíamos, ouvíamos, ouvíamos. Ouço ainda hoje.

LEIA TAMBÉM NESTE BLOG: OS REIS DO IÊ IÊ IÊ 

A ESQUERDA EM BAIXA, de JAYME COPSTEIN

ARTIGO PRESCIENTE DE 19/7/2010 DO BRILHANTE JORNALISTA E RADIALISTA GAÚCHO JAYME COPSTEIN, FALECIDO EM 12/1/2017, COM QUEM TIVE A OPORTUNIDADE DE ME CORRESPONDER POR VÁRIOS ANOS, EMBORA NÃO VIESSE A CONHECÊ-LO PESSOALMENTE. FOTOS DO EDITOR DO BLOG TIRADAS DURANTE OS MEGAPROTESTOS PACÍFICOS QUE PRECIPITARAM A IMPLOSÃO DO PROJETO DE PODER CRIMINOSO PETISTA, SALVANDO-NOS DO FANTASMA DA VENEZUELIZAÇÃO



Enquanto na América Latina, a esquerda só conseguiu progressos eleitorais aliando-se a manjados caudilhos populistas e a corruptos de todas as roupagens ideológicas, na Europa comentaristas políticos especulam se qualquer vertente do socialismo tem futuro. 

As indagações nascem do desastre econômico a que partidos de esquerda produzem quando governam, como atualmente em Portugal, Espanha e Inglaterra, ou já governaram, como França e Itália, onde continuam a sofrer pesadas críticas.

Mesmo diante da crise que assola o mundo capitalista, a opinião pública europeia não se mostra condescendente com a esquerda. É que os anos de austeridade e contenção dos conservadores no Governo têm sido sistematicamente desbaratados em benemerências sociais sem pé na realidade. Aliás, é o que está acontecendo no Brasil de hoje em que os esforços do governo anterior, para alcançar solidez à economia e equilíbrio às finanças, têm sido malbaratados em projetos de perpetuação no poder da aliança que nele se aboletou para saquear o Tesouro

O declínio político da esquerda europeia foi registrado sob o dramático título de “Os últimos dias do socialismo”, em matéria do International Herald Tribune, a edição internacional de The New York Times. Mas Bernard Henri Lévy, ícone do socialismo francês, foi mais contundente: "Já está morto. Ninguém, ou quase ninguém, se atreve a dizê-lo. Mas todos, ou quase todos, sabem disso”.

A matéria publicada pelo International Herald Tribune resume artigo do próprio The New York Times, intitulada “Europe’s Socialists Suffering Even in Downturn” (Socialismo europeu sofre declínio).” É uma longa análise da situação político-partidária europeia. Dela se depreende que contribui para a agonia do esquerdismo europeu o fato de ser doutrina inspirada pela realidade do Século 19, mas superada por avanços tecnológicos do final do Século 20, como a globalização, por exemplo. Enrico Letta, jovem líder da esquerda italiana, confrontado com o populismo nacionalista de Berlusconi, assinalada a necessidade de “construir um centro-esquerda pragmático, como alternativa atraente e não mera oposição”. 

Há certa semelhança com a situação brasileira, onde os partidos de esquerda, após anos de recalcitrante oposição, aliaram-se ao que havia de pior na prática política, para um projeto anfíbio de poder. Na superfície, a submissão aos corruptos e inescrupulosos sob o pretexto da governabilidade. Nas águas profundas, o aparelhamento do estado e as repetidas tentativas de impor uma ditadura dissimulada sob a máscara de “democracia direta”, criando de “conselhos” para controlar a justiça, a educação e a livre manifestação do pensamento através da censura à imprensa. 

É evidente que Tony Judt, diretor do Instituto Remarque da Universidade de Nova York não leva em conta nem faz referência à evolução da esquerda brasileira ao se mostrar pessimista em relação à receita de Enrico Letta, mas a observação da coincidência de situações se legitima no comportamento semelhante dos “militantes”, aqui e na Itália. Judt é taxativo: "Não acho que o socialismo na Europa tenha futuro, e dado que é parte essencial do consenso democrático europeu, é uma má notícia ".

Resta saber para quem, se para a esquerda ou para todos nós, que devemos nos preparar para a violência do terrorismo, tal como ocorre quando esta gente não consegue impor-se pela convicção das ideias [COMO VEM OCORRENDO ATUALMENTE NA VENEZUELA].

MITOS DA ESQUERDA (ou O ÓPIO DOS INTELECTUAIS), de IVO KORYTOWSKI



A esquerda criou o mito de que Dilma foi derrubada por um golpe de estado e Lula é a inocente vítima de um complô judiciário (quando na verdade Dilma caiu vítima da própria incompetência e Lula foi o chefe da quadrilha que depenou a Petrobrás, entre outros ilícitos).

A esquerda criou o mito de que Israel é o arquivilão do Oriente Médio (quando na verdade abundam vilões nessa conturbada região do globo).

A esquerda criou o mito de que os EUA mereceram os ataques terroristas de 11/9 (sem comentários).

Quando Sadam Hussein invadiu o Kuwait, a esquerda criou o mito de que o Iraque tinha um direito histórico àquela área (lembro bem, cheguei a polemizar com esquerdistas na seção de cartas do JB, a “rede social” da época).

Quando as tropas do Pacto de Varsóvia entraram em Praga, a esquerda criou o mito de que foram recebidas com aplausos e flores pela população tcheca (recordo bem, ouvi na época nas transmissões em ondas curtas da rádio de Moscou).

A esquerda criou o mito de que a Cuba é o paraíso sobre a Terra (quando na verdade esse paraíso é a Dinamarca, se é que existe).

A esquerda criou o mito de que o Muro de Berlim foi erguido para proteger o lado comunista de espiões e agitadores ocidentais (lembro perfeitamente, li isso num livro de esquerda sobre a questão do Muro na época – uso “questão” de propósito porque esquerdista não consegue articular uma ideia sem uma “questão” no meio – pobreza vocabular?)

A esquerda criou o mito de que o Guia Genial dos Povos, Stalin, conduziria a União Soviética para o radioso porvir socialista (quando na verdade Stalin foi um assassino do mesmo quilate de Hitler).

A esquerda de linha maoísta (porque, assim como a religião, a esquerda se divide em seitas) acreditava que Mao Tse Tung conduziria a China idem. (Me engana que eu gosto.)

A esquerda criou o mito de que o capitalista é o maior inimigo do trabalhador (quando na verdade é o capitalista quem cria os empregos – pense bem, se o capitalista é dispensável, como reza a cartilha marxista, por que o trabalhador, em vez de se sujeitar à humilhante busca de emprego, não cria seu próprio emprego?)

A esquerda criou o mito de que os Estados Unidos são os maiores vilões do Universo (tente viver sem as comodidades que os americanos trouxeram ao mundo: para-raios, avião a jato, geladeira, aspirador, I-Pod, Kindle, Viagra, vacina Sabin, etc.)

Se, como queria Marx, a religião é o ópio do povo, eu diria que o marxismo é o ópio dos intelectuais

VERDADE, de FRANCISCO DAUDT

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 26/4/2017 NO BLOG DE FRANCISCO DAUDT DA VEIGA

Boca da verdade, em Roma. Reza a lenda que, se você enfiar a mão na boca e disser uma mentira, ela fechará. Por via das dúvidas...

“A realidade pode ser incômoda, mas é o único lugar onde se consegue um bife decente”, disse Woody Allen, resumindo a relação conflituosa que nossa espécie tem com a verdade. Precisamos dela, mas frequentemente a rejeitamos.

Tudo começou com a morte. Tão logo brotou no sapiens a percepção de que todos vão morrer – inclusive o próprio –, ele arranjou um jeito de dizer “não é bem assim, existe vida após a morte”. E deixou o primeiro sinal de consciência registrado pela espécie, há cem mil anos: os ritos fúnebres.

Fato é que os dois instintos que nos movem – a sobrevivência pessoal e a da espécie –, fazem com que lidemos com a realidade, ora buscando a verdade, ora fugindo dela. Vejamos o sexo: um provérbio português dos anos 1600 dizia que “juras de foder não são para crer”. Esse negócio de “eu vou casar com você amanhã” deve ser bem verificado pela moça, pois as chances de o rapaz estar em franco desapreço pela verdade são muito grandes.

No caso da sobrevivência pessoal, o processo de delação premiada é exemplar quanto ao jogo entre a verdade e o risco de mentir: o delator tem tudo a perder se estiver mentindo. Vai em cana, não ganha seu prêmio. Já o delatado tem tudo a ganhar, se sua mentira emplaca. É a velha questão do “cui prodest” (quem se beneficia?) latino, que serve de boa pista para se descobrir o culpado do crime. Ele se aplica à divisão política que o país vive: há um monte de gente com a postura de que “se os fatos contrariam as minhas crenças – ou meus interesses corporativos –, bem, danem-se os fatos”.

Outro exemplo é o “me engana que eu gosto”. Ninguém quer ser trapaceado; já docemente enganado, até contratualmente, nós todos adoramos: quando vamos ver um filme, aplicamos o “suspension of disbelief”, um acordo de suspensão da desconfiança para poder embarcar na ficção. De modo que, se aparecer um centurião romano de relógio, vamos ficar muito aborrecidos com esse chamado da realidade.

E há o pensamento mágico: nossa sobrevivência pede um certo grau de controle (ou de ilusão de controle) sobre o mundo externo. É bom saber se vai chover na minha horta, e se eu puder controlar a chuva através de uma dança ritual (ou do cacique cobra-coral), eu a farei. Assisto passivo ao jogo de futebol, mas se pegar uma cerveja na geladeira pode ajudar o meu time a fazer gol (afinal, foi o que aconteceu no jogo passado), lá irei pegá-la.

Milênios se passaram até que alguém humildemente admitiu sua ignorância: “Não sei porque isso acontece. Mas quero saber”. Foi o embrião da ciência. Não é um assombro pensar que tal postura – como tendência mundial – tem apenas seiscentos anos?

O que dizer das convicções dos filósofos realistas e idealistas frente a uma árvore que cai no meio do deserto sem testemunhas? Os realistas creem que a árvore faz barulho ao cair. Os idealistas, como julgam que a realidade só existe no mundo das ideias, creem que não, que ela cai em completo silêncio. Preciso dizer que sou realista?

Neste tempo de pós-verdade, de relativismo, de “verdade de cada um”, deixo claro aqui que nunca entrarei num avião construído por um engenheiro pós-moderno.

PARA LER O DIÁRIO DA VIAGEM ONDE FOTOGRAFEI A BOCA DA VERDADE EM ROMA CLIQUE AQUI. Para ler outras ótimas crônicas de diversos autores clique no label "crônicas" abaixo.

PASSAPORTE PARA O PARAÍSO (livro de IVO KORYTOWSKI)


Ivo Korytowski
Passaporte para o Paraíso
Editora Fragmentos

Passaporte para o Paraíso desenrola-se em três planos: em primeiro plano, descrevem-se as vicissitudes de um judeu alemão que emigra para o Brasil com a família a fim de escapar ao nazismo; o segundo plano trata do romance entre seu neto e uma brasileira católica numa época em que o casamento de pessoas de religiões diferentes ainda era problemático; o terceiro plano consiste em uma reflexão sobre a crença no Messias. “O senso de humor, ironia e apreciável gama de conhecimentos filosóficos são responsáveis por uma trama singular e atraente.” Escrito trinta anos atrás, só agora tive a oportunidade de publicar. Menção honrosa do Prêmio Graciliano Ramos da UBE em 1992.

"Considero Passaporte para o Paraíso de Ivo Korytowski um romance de grande valor. Trata-se de um romancista arguto e denso. Ele tem cultura filosófica e uma visão extremamente lúcida da realidade. Seu livro – sobre o drama terrível dos judeus – é um desses livros intensos que a gente não esquece nunca mais." Antonio Carlos Villaça

LANÇAMENTO EM SÃO PAULO:

Em junho, em dia e local a serem oportunamente informados

ONDE COMPRAR O PASSAPORTE PARA O PARAÍSO:

1. Por R$24,00 no site da Editora Fragmentos: clique aqui.

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ELOGIOS RECEBIDOS NA PRIMEIRA SEMANA APÓS O LANÇAMENTO DO LIVRO:


Estou lendo seu livro, você consegue colocar verve em trechos dramáticos. Auto referente e bom texto.
Esther Largman

Terminei de ler ontem à noite todas as 122 páginas (123, contando a “Nota do Autor”) do seu «PASSAPORTE PARA O PARAÍSO». Conforme eu antecipava, teu livro é Opera Prima, quem conhece o autor, pessoa de alta qualidade, sabe que sua obra também vai ser de alta qualidade, muito culturalmente informativa. E mais que isso, eu passei a conhecer melhor as tuas origens (origens dos Korytowskis).
Merece ser elogiado:
1º) porque tem alta qualidade literária, e de sobra;
2º) permite ao leitor conhecer características/costumes do povo judeu não facilmente encontráveis em português em quaisquer outros lugares.
Erik José Steger

Estou aqui comovido com a leitura do seu "Passaporte". Comentei sobre ele com o ***, cujos pais também fugiram do nazismo, e ele me pediu um exemplar. Onde encontro?
Francisco Daudt

Realmente você é um bom escritor, nasceu para as Letras, o que se confirma nas suas outras obras e nos seus blogs.
Parabéns e sucesso.
Ronaldo Câmara

O livro do Ivo é maravilhoso, eu adorei, principalmente porque eu conheci a família. Ele escreve tão bonito que a gente fica emocionado.
Judith Berger

Ivo, eu li o livro Passaporte para o Paraíso, escrito por você, e achei-o sensacional! Parabéns!!!
Siomara De Cássia Miranda

O artifício das narrativas paralelas mostra com humor e ironia a assimilação de culturas quase opostas (e tão parecidas). Se Sérgio fosse goy (é assim?) e Helena judia, como aconteceria o progresso do casamento?  O registro da já tradicional marmelada no Itamaraty e adjacências do poder dá um “flagra” bem a propósito. Histórias que muitos outros Ottos contariam.
Que o Passaporte tenha perene validade para outros romances, com humor, amor e ironia.
Helio Brasil

Gostei muitíssimo do seu livro, diverti-me a valer.
Alexei Bueno

Só agora pude terminar a leitura desse excelente romance, não me importando como classificá-lo. Confesso que não fiquei surpreso com a qualidade superior do texto e da trama. Muito interessante, completamente novo para mim, o processo de criação da obra. Esse processo merece um estudo a parte, já que há cortes abissais que se recosturam e retomam um "fio condutor", que seria, digamos, sub-reptício ou subterrâneo. Coisa de Mestre!

Seu Passaporte para o Paraíso, eu diria, para a Eternidade, já está acertado. Você já escreveu para dialogar com as gerações futuras. Falo sem medo de errar.
Geraldo Reis


Comecei a ler o seu livro (Passaporte para o Paraíso) dentro do avião, no voo do Rio para BH. Li até a p. 30, apreciei muito e quando o avião aterrissou, senti-me frustrado, querendo que o voo durasse mais tempo. Agradaram-me imediatamente a redação, o estilo e o conteúdo. Agora vou continuar a ler um pouco mais devagar, curtindo todos os detalhes. Acho que o menino na capa é você.
Osmar Brina Corrêa-Lima


Já terminei seu livro há algum tempo, li aos poucos, um capítulo por dia, degustando. Seu texto é muito bom, a narrativa flui de forma bem agradável e os toques de humor são uma das suas principais características. É interessante refletir sobre como o povo judeu jamais poderia imaginar que um país culto como a Alemanha poderia se render a um psicopata como Hitler. Aliás, ninguém poderia imaginar isso, essa é que é a verdade. Fica a vontade de ler mais, acho que a história poderia ser bem maior, centrada no casal, achei que terminou de uma forma que a gente fala assim: poxa, já?
André Luis Mansur Baptista


Ivo, terminei de ler o teu livro ontem à noite: UMA OBRA PRIMA! PARABÉNS! ESCREVA MAIS LIVROS!

Márcio Steinbruch


RESENHAS:

No blog Poesia, Arte e Literatura de Salomão Rovedo. Para acessar clique aqui.